Correção e recursos da prova de História mundial do CACD 2022

Alunos e alunas, pessoas que me acompanham aqui. Sou professor de História Mundial para candidatos ao Concurso de Admissão à Carreira Diplomática. Seguem alguns comentários sobre a prova de hoje, item por item, com eventuais sugestões para recursos. Lembrando que cada prova possui uma ordem diferente de questões, então, por isso, faço um breve preâmbulo em cada item; confira a ordem da sua prova com cuidado para evitar sustos. 

Na avaliação geral: foi uma prova difícil, com muitos itens muito longos, o que pode causar confusão e insegurança no candidato. O meu número de discordâncias com o gabarito foi menor que o habitual, por outro lado.

A seguinte resolução segue a ordem do caderno de prova tipo A. Você pode baixar os cadernos de prova e os gabaritos no site da banca organizadora.

Questão 55 – Sobre New Deal

Item 1, sobre Plano Swope – Aluno meu que errou esse item fica de castigo. O item, apropriadamente, lembra que existem dois momentos do New Deal. O primeiro deles é de forte intervenção estatal, exatamente o oposto do que o item diz, mesmo se o candidato não lembrasse por nome do Plano Swope, que não faz parte do New Deal, mas do governo Hoover. Duplamente errado, item E 

Item 2, sobre company unions – Uma company union é basicamente um sindicato controlado pela empresa empregadora, item faz um resumo apropriado, item C 

Item 3, sobre Social Security Act – O item, apropriadamente, lembra que existem dois momentos do New Deal. O segundo é marcado por uma abordagem de federalizar as atribuições econômicas de recuperação da economia, inclusive para diminuir as diferenças entre os estados, como o item aponta. Item difícil e C

Item 4, sobre National Labor Relations Act – O NLR não “legitimava a interferência do Estado” nos sindicatos e o Taft-Hartley Act, do governo Truman, delimitou as atuações sindicais no pós-guerra. Item E

Questão 56 – Sobre Doutrina Monroe

Item 1, sobre a guerra de 1812 – Sim, a guerra de 1812 foi muito importante para o nacionalismo dos EUA, mas não é possível dizer em alinhamento de opinião pública com interesses políticos. Além disso, o item fala em “nos anos seguintes”, o que parece estar diretamente relacionado a Doutrina Monroe do enunciado, que é de 1823. Item E

Item 2, sobre a posse de Monroe – Falar que o Congresso dos EUA se manifestou contra o reconhecimento de alguma independência não faz sentido. Item E

Item 3, sobre o State of the Union – Item faz um apropriado resumo da origem da Doutrina, no discurso de State of the Union, e seu contexto. Item C

Item 4, sobre John Quincy Adams – Item difícil, mas Quincy Adams, posterior presidente dos EUA, não desejava uma aproximação com os novos Estados latino-americanos, temendo uma guerra com a Espanha. Item E

Questão 57 – Sobre nacionalismo no século XIX

Item 1, sobre educação – Item longo, difícil e extremamente específico. O contexto está corretíssimo, mas a inserção de exemplos muito específicos pode causar dúvida no candidato. Caso um candidato queira insistir em um eventual recurso, pode alegar que o Reform Act de 1867 é do Reino Unido, não “da Inglaterra”. Item C, mas pode ser anulada

Item 2, sobre língua nacional – Outro item que faz uma sequência direta em relação ao enunciado, algo incomum no CACD. O item é praticamente uma citação de Nações e nacionalismo desde 1780, de Hobsbawm. Em aulas costumamos citar o caso do idioma “italiano” que, até a unificação, era o florentino. Item C

Item 3, sobre formação dos Estados – Na verdade, podemos falar de uma educação que se torna cada vez mais específica, e não geral, e em um processo de urbanização local, não apenas por causa da migração. Item E, embora bastante mal redigido 

Item 4, sobre nacionalismos – O item está correto em seu contexto, porém um pouco vago e ambíguo. Item C

Questão 58 – Sobre Era Vitoriana

Item 1, sobre padrão ouro – Item faz um resumo correto sobre a proeminência econômica britânica no período, item C

Item 2, sobre centro das finanças – Item faz um resumo correto sobre a proeminência econômica britânica no período, item C

Item 3, sobre coroação – O item fazia um resumo correto e apropriado, mas falar em “exceto na Oceania” é errado, vide Austrália e Nova Zelândia, item E

Item 4, sobre autores – Primeira divergência séria. O enunciado é claramente sobre a Era Vitoriana e, embora cite dois importantes escritores britânicos, Dickens e Kipling, autores de Oliver Twist e Mogli, também cita Herman Melville, autor de Moby Dick. A questão é que Melville é nascido nos EUA, não britânico. Gabarito veio como C, mas deveria ser E

Questão 59 – Sobre o período entreguerras

Item 1, sobre padrão-ouro – Não é possível falar em “era a hora de estabelecer novas bases” já que a tentativa de superar o padrão-ouro veio do Reino Unido, ou seja, uma das principais potências comerciais, item E

Item 2, sobre declínio britânico – O item faz um apropriado, embora rocambolesco, resumo do pós-guerra, item C

Item 3, sobre EUA – O item começa relativamente bem, embora a afirmação de “maior produtor de bens primários” possa ser discutida. De qualquer maneira, falar em protagonismo na Liga das Nações é errado, item E

Item 4, sobre economia – Falar em cooperação econômica informal não faz sentido algum, item E

Questão 60 – Sobre Guerra Civil dos EUA

Item 1, sobre as eleições de 1860 – Resumo apropriado, embora novamente rocambolesco, item C

Item 2, sobre Lincoln – Item interessante, sobre a imagem de Lincoln como crítico da escravidão, mas não um abolicionista em sua eleição, item C

Item 3, sobre economia – Item faz um apropriado resumo do impacto positivo da guerra no norte, item C

Item 4, sobre o sul – O item faz um diálogo direto com o item anterior, outra coisa incomum. O item faz um resumo apropriado, entretanto, um candidato pode alegar que as vendas de algodão diminuíram bastante, mas continuaram, com o contrabando dos blockade runners, e que a indústria armamentista local também continuou, embora com menor impacto. Item C, mas discutível

Questão 61 – Sobre Revolução Francesa

Item 1, sobre legislação – O item começa bem, lembrando da defesa de limitar legalmente o poder do monarca. Posteriormente, entretanto, fica contraditório ao falar que os “revolucionários recusaram o imperativo da racionalidade jurídica”. Mesmo o Período do Terror é marcado por uma abordagem jurídica, com julgamentos e execuções. Item E

Item 2, sobre clérigos – O “estatuto civil” clerical é fruto da revolução, não foi abolido por ela. Item E

Item 3, sobre eleitorado – Item bastante específico. A Assembleia Nacional foi a primeira organização parlamentar do período revolucionário e restringia o voto, excluindo os não-proprietários. Isso é posteriormente abolido, o que pode gerar confusão. Item C

Item 4, sobre festividades – Item diferente e, em resumo, apropriado. Item C

Questão 62 – Sobre independências na América

Item 1, sobre as abdicações – Item bastante extenso e rocambolesco, incluindo usar o nome das abdicações dos reis espanhóis em favor de Bonaparte. Item C

Item 2, sobre o Grito de Dolores – Item bastante apropriado, item C

Item 3, sobre Montevideo – Item bastante específico. O governador era sim rival de Santiago de Liniers, o vice-rei, mas por razões políticas, não razões nativistas. Após o levante de Artigas, herói nacional uruguaio, o governador é expulso. Item E

Item 4, sobre o Chile – Outro item bastante específico, retirado do capítulo sobre o tema da coleção organizada por Leslie Bethell. O item está correto em lembrar que os cabildos foram formados para o governo local inicialmente, não por motivos independentistas, bandeira posterior. Item C

Questão 63 – Sobre Revolução Mexicana

Item 1, sobre o plano de Potosí – O plano é o estopim da revolução mexicana e, ao contrário do que diz o item, mobilizou também líderes fazendeiros do norte, com Pancho Villa. Item E

Item 2, sobre Huerta – O item faz um resumo apropriado do período de “El Usurpador”, incluindo suas intrigas de espionagem no contexto da Grande Guerra. Item C

Item 3, sobre a Constituição – A constituição mexicana já foi definida, pelo próprio CACD, como anticlerical. Item E

Item 4, sobre Obregon – Item bastante específico, mas faz um bom resumo das políticas pós-período revolucionário de consolidação de uma identidade nacional e expansão da educação pública. Item C

Questão 64 – Sobre nacionalismos citando Hobsbawm na introdução

Item 1, sobre Mazzini – Mazzini é um dos principais expoentes da perspectiva liberal nos movimentos nacionais, defendendo revoluções populares “vindas de baixo”, em contraste aos processos de unificação “pelo alto”. Item C

Item 2, sobre a Irlanda – Item bastante específico e, por isso, possivelmente contraditório. O Jovem Irlanda culminou na Fraternidade Republicana, de relevante papel na independência irlandesa. A Fraternidade Republicana, por sua vez, tem relações com o Exército Republicano Irlandês, o IRA mencionado no item. O movimento recentemente extinto, entretanto, era o Provisional IRA, criado na década de 1960, no contexto dos Troubles. Ou seja, o item dado como C no gabarito pode ser revertido ou anulado por imprecisão. 

Item 3, sobre Jovens Turcos – Os Jovens Turcos são do século XX, o item tenta enganar o candidato com a familiaridade com o termo, item E

Item 4, sobre ambiguidade – O item tenta se referir aos nacionalismos chauvinistas e expansionistas e é praticamente uma citação da obra de Hobsbawm, item C

Questão 65 – Sobre a Tchecoslováquia em 1938

Item 1, sobre a Conferência de Munique – A Conferência de Munique, ao retalhar um Estado soberano sem participação, não tinha amparo legal. Item E

Item 2, sobre anexação da Áustria – O item faz uma analogia e, como qualquer analogia, é problemática. Feita sem pretensão, ela faz sentido. Item C, mas de difícil aceitação

Item 3, sobre impotência em Munique – Novamente, um item que faz uma avaliação subjetiva. Correta, sim, mas de difícil sustentação em uma prova objetiva. Melhor seria em uma questão discursiva. Item C

Item 4, sobre esforços em Munique – A conferência não logrou evitar novas anexações. Item E

Filipe Figueiredo é professor de História, fundador do site Xadrez Verbal e de seus podcasts, integrante do canal Nerdologia e colunista do jornal Gazeta do Povo, além de ter passado por outros veículos.

6 Comentários

  • Muito obrigada pela análise, Filipe! A questão do IRA marquei (E) com gosto, porque tive certeza de que, se o grupo tivesse sido extinto, eu teria ouvido no XV. Recurso, go go go!

  • Estou FASCINADO tanto com a complexidade como também a prova escultura os conhecimentos. Por um desatino imprevisível – esmagado aí qualquer meio termo; coisa dantesca para qualquer um ser racional e razoável – nao tive condicao de competir.
    Mas em 2023 eu hei de – se tiver! – dar o meu melhor, por meio da melhor forma possível — é dizer, aprendendo por meio de magnificos como voce!

  • silvio cezar andriguetto

    questão 56 ítem 1.Não compreendo nem um pouquinho como a questão não foi apontada para inversão do gabarito.A Guerrra de 1812 teve ampla participação popular e portanto da opinião pública dos Estados Unidos da América.O país contava com 10 milhões de habitantes e cerca de 80 000 soldados se engajaram como voluntários, enfrentando os índios e os canadenses.Não sei o que autoriza a banca a afirmar que não houve apoio da opinião pública se o próprio hino da nação foi composto no decorrer desta guerra.Seria então correto afirmar que a população ficou alheia ao acontecimento vital para o país, neutra diante da ameaça de recolonização?

  • Olá já estou a conseguir acompanhar o vosso programa queria deixar dica cultura para o publico para que pudessem assistir o filme alemão chamado Die Welle ou A Onda em português e também se é possível vocês repetirem outra vez o nome do site da ONU sobre os debates que podemos assistir em várias línguas.

  • Filipe, sobre o seu questionamento em relação ao que significaria “terrinha”: essa era maneira carinhosa com que a gente se referia a Portugal (não sei se apenas no Rio..??..??). Mas aprendi essa semana que os portugueses não gostam desse termo, porque ele teria uma conotação pejorativa em Portugal. Não era essa a interpretação, no Rio, pelo contrário: terrinha era um jeito carinhoso de se referir a um lugar simpático e agradável. Mas ficam aqui as desculpas aos irmãos portugueses.

Deixe uma resposta para Braga Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.