Sobre a queda de governo em Bangladesh

Este texto foi originalmente publicado como uma thread no Twitter/X e é reproduzido aqui para facilitar o acesso aos que não possuem perfil naquela rede social.

Ontem, 5 de agosto, Sheikh Hasina abandonou o cargo de primeira-ministra de Bangladesh e fugiu do país, depois de meses de crise e de protestos, notícia que deveria ser foco de mais atenção.

Pois envolve também duas potências nucleares.

Sheikh Hasina foi premiê de Bangladesh de 1996 a 2001, e de 2009 até ontem. Ela é a pessoa que mais tempo ocupou o cargo. Ela é filha de Sheikh Mujibur Rahman, primeiro presidente da História do país e revolucionário da libertação do domínio do Paquistão em 1971.

É a estátua dele sendo derrubada na imagem que abre essa thread. Um socialista, ele foi assassinado em 1975, quando estava no cargo, em um golpe militar, acusado de querer criar um “culto de personalidade”. E vocês já vão entender o motivo de eu falar dele. Seus assassinos só foram punidos em 2020 e escrevi coluna no jornal sobre isso

Pode parecer piada ou exagero, mas eu, Filipe, e Matias repercutimos o que acontece em Bangladesh sempre, e este é um trecho de novembro de 2023 em que falo que que a coisa lá estava ruim.

Vamos aos aspectos domésticos da atual crise, então.

1, crescente autoritarismo e repressão do governo Sheikh Hasina, incluindo uma eleição em janeiro de 2024 que não foi considerada justa, com a oposição limitada em sua oposição, e não reconhecida por países como EUA e Reino Unido. A eleição também foi marcada pelo boicote da oposição, com apenas 41,8% de comparecimento eleitoral (80,2% em 2018, como comparação). Índia e China reconheceram a eleição. Antes que alguém já pule e ache que tudo se resume aos EUA e se trata de uma “revolução colorida” contra a China, se segura na cadeira, pois, pra variar, é mais complexo que isso (quase sempre é).

Inclusive, quem treina a polícia bangladense? O Reino Unido. Link1. Link2. A repressão policial deixou dezenas de mortos no país nos últimos dois anos, além de vários jornalistas presos e censura de jornais.

2, crise socioeconômica.

Bangladesh tem uma das economias que mais cresceu no mundo na última década e é um importante polo têxtil, mas o crescimento ficou concentrado em uma camada social. Pobreza e desemprego entre os jovens continuam altos. Tivemos uma série de greves recentes no país (podcast XV #356) e os sindicatos são bem organizados.

Para piorar, o país passou por grave surto de dengue, com mais de mil mortos nos números oficiais subnotificados, o que também tem relação com crise climática.

3, tudo isso culminou nos protestos que começaram em junho, contra as cotas de familiares de veteranos no serviço público (XV #387 e XV#388). Em suma, movimentos estudantis e a oposição protestaram contra o autoritarismo e contra o governo Hasina por uma decisão da Suprema Corte de restaurar uma cota de 30% no serviço público para descendentes de veteranos da Guerra de Independência de 1971.

Essa cota inicialmente era para amparo social mas, 50 anos depois, criou uma “casta”. A repressão deixou mais de 260 mortos e, quanto mais repressão, mais pessoas nas ruas, ao ponto que o governo caiu.

Apoiavam os estudantes desde os comunistas até nacionalistas e islamistas.

Essa é a crise doméstica. Agora vamos falar de História, de política internacional e de geopolítica.

Bangladesh, antigo “Paquistão Oriental” se tornou independente do Paquistão em 1971, no contexto do Genocídio Bengali. Essa independência veio graças ao apoio indiano.

Historicamente, o país alternou momentos de maiores proximidades com a Índia com maior proximidade com a China e Paquistão, que são aliados desde a década de 1960.

Em resumo e em linhas gerais, podemos falar de duas forças.

Quem favorece a Índia é a Liga Awami, partido de Hasina e de seu pai, secular e fundado como socialista. Hoje, o partido é mais desenvolvimentista do que socialista.

Quem favorece a China e o Paquistão é o Partido Nacionalista, conservador e representante do nacionalismo bengali. Em vários momentos, os nacionalistas fizeram alianças com o Jamaat-e-Islami, o principal partido religioso islâmico, que foi contra a independência e chegou a ser banido algumas vezes.

Ou seja, esqueça pensamentos infantis de alinhamento ideológico. A China é aliada de islamistas no Paquistão, nas Maldivas e em Bangladesh, baseada em seus interesses.

Uma das razões do sucesso econômico do governo Hasina foi que ela conseguiu equilibrar as relações com as duas potências, atraindo investimentos da Índia e da China.

Sua queda, entretanto, é um revés para a Índia, que, extraoficialmente, acusa China e Paquistão de estarem por trás dos protestos que a derrubaram (ISI é a inteligência paquistanesa, a “CIA” deles). Hasina, inclusive, fugiu para a Índia, e foi recebida pelo chanceler.

A principal plataforma que impulsionou os protestos foi o TikTok, chinês, e Bangladesh mais de uma vez baniu o app. Quem vai assumir o poder provisoriamente são os militares. Muitos deles possuem intensos laços com a China, maior forncedora de equipamento bélico para Bangladesh.

A crise em Bangladesh se encaixa também na disputa regional entre duas potências nucleares, Índia e China, que incluem choques fronteiriços, o não reconhecimento da fronteira e a busca por aliados em seu entorno estratégico. Recentemente, Maldivas elegeu seu primeiro governo islamista, pró-China e anti-Índia (XV #353 e XV #362).

O premiê do Nepal é um aliado indiano, mas, recentemente, se aproximou da China. Os protestos e queda de governo no Sri Lanka em 2022 causaram instabilidade em um país com bases navais de ambas as potências.

Para balancear, causando preocupação chinesa, a Índia está aumentando suas bases navais no Índico, inclusive perto do estreito de Malaca, por onde passa a maior parte do comércio marítimo chinês.

E existe um componente essencial na disputa entre Índia e China com relação-chave com Bangladesh: água.

O controle das terras altas do Himalaia, foco da disputa entre China e Índia, significa o controle das nascentes de alguns dos principais rios da Ásia. A China quer fazer uma barragem no rio Brahmaputra, um dos principais de Bangladesh.

Importante lembrar que nada disso anula a agência dos atores bangladenses nem afeta a legitimidade dos protestos. Existem questões importantes e legítimas. Só que a situação é mais complexa do que muita gente pensa. Temos comunistas, nacionalistas e islamistas de um lado, seculares desenvolvimentistas do outro.

E essa questão doméstica não pode ser excluída do regional e da disputa por influência entre potências vizinhas, China e Paquistão de um lado, Índia do outro, e essa crise pode reverberar bem mais.

Como sempre, agradeço a confiança nesses dez anos de trabalho e peço que compartilhe a thread.

2 Comentários

  • Avatar de Vinicius

    Uma pequena observação na informação da ginástica artística, não foi a delegação do Chile mas sim uma Estados unidenses, Jordan Chiles.

  • Avatar de Vlad Schüler

    Só porque vocês perguntaram: esse ano vai completar dez anos ininterruptos que eu ouço Xadrez Verbal — comecei a ouvir depois de uma das primeiras participações do Filipe no Nerdcast, lá em 2015.

    Desses dez anos pra cá eu terminei meu mestrado no Brasil, fiz meu doutorado no UK, e continuo morando aqui (hoje lecionando em uma universidade). Inclusive eu tiro onda com meus amigos britânicos, falando que eles sofrem por não terem um equivalente anglófono ao Xadrez Verbal 😉

    Parabéns pelo ótimo trabalho, e por mais décadas de XV!

Deixe um comentário