MPL – Caminhos a seguir, decisões a tomar, que sigam nas ruas

capaanalise

Caro leitor, nas últimas semanas escrevi textos mais descritivos dos diversos atos do MPL pela cidade. Hoje trago um texto um pouco mais analítico, buscando compreender por onde vai a luta do Movimento Passe Livre e onde podemos chegar. Claro são projeções, opiniões, palpites (sem nenhuma pretensão de vidente) desse que vos escreve baseado no que tenho visto pelas ruas e também no que tenho lido e refletido sobre o tema.

Desde o dia 09 de janeiro de 2015 o MPL voltou às ruas com o objetivo não só de derrubar o aumento da tarifa de ônibus e metrô, que passou de R$3,00 para R$3,50 no início do ano, mas também levar adiante a luta contra a tarifa, mirando o, para muitos, utópico conceito de “tarifa zero”. Como o leitor pôde acompanhar ao longo da cobertura realizada pelo blog, os dois primeiros atos foram bastante grandes e reuniram mais de 15 mil pessoas, as duas manifestações foram duramente reprimidas pela PM, deixando feridos diversos manifestantes e também membros da imprensa. Daí em diante os atos passaram a reunir um número menor de pessoas, cerca de 5 mil, consolidando uma luta que a cada dia deixava clara a necessidade de ser levada por um longo período.

Nesse meio tempo muito se falou e se escreveu sobre os protestos, o prefeito Haddad expressou estar de acordo com o governador Geraldo Alckmin ao apoiar a repressão da Polícia Militar e sua necessidade de manter a ordem e as vias liberadas para o sacrossanto automóvel, Eliane Brum mostrou que se pode olhar para os protestos e para os manifestantes de outra forma, sem que se banalize o roteiro da repressão e violência de maneira que os atos não se esvaziem, além disso, os governantes tem deixada clara sua preferência pela máfia dos transportes e suas relações escusas.

O 7° Grande Ato do MPL ocorrido no último dia seis deixou uma marca nessa luta, ainda não sei se positiva ou negativa e é justamente sobre isso que este breve texto tentará tratar. A manifestação marcada para a última sexta-feira em frente ao prédio da prefeitura reuniu muito menos gente do que o de costume, no máximo umas mil pessoas. O ato foi tranquilo e debaixo de muita chuva, entretanto, diferente do usual no final da manifestação não foi anunciado o próximo grande ato. O que indica com clareza algo que já vinha se desenhando nas últimas semanas. O MPL está em uma sinuca. E por que digo isso?

Está claro que o movimento está passando por um momento de refluxo, isso ocorre a meu ver por uma série de razões: repressão da PM, pouca atenção da grande mídia que finge não ver os atos, assim como a repressão, a época do ano, grande quantidade de atos o que pode gerar um cansaço geral não apenas físico, mas também emocional, há que se considerar também o fato de que tais atos e a mobilização em si não é mais uma novidade tão grande e por fim, depois das eleições de 2014 construiu-se a noção geral de que em 2013 muitos foram às ruas e “lutaram por R$0,20” e no ano seguinte colocaram os mesmos governantes no poder, fazendo referência a Alckmin e Dilma.

E pensando esse contexto enxergo que são duas as saídas disponíveis e penso que as duas são arriscadas para o MPL, movimento que completou 10 anos recentemente. A primeira seria levar definitivamente os atos para as periferias, concordando e aceitando o fato de que eles serão menores e chamarão menos atenção da imprensa e consequentemente do cidadão médio, fazendo com que a luta contra a tarifa não seja tão direta este ano, mas tendo em mente que se trata de um trabalho de base e a longo prazo, algo que será construído com o tempo e que fortalecerá o movimento não para a luta este ano, mas para os que virão. Ao que parece o MPL já tem essa noção e tem trabalhado isso com as diversas atividades nos bairros mais distantes e inclusive com alguns atos nas periferias. Ou seja, é arriscada, pois provavelmente fará com a construção de base se fortaleça, mas ao custo de abrir mão de vez da mobilização de rua no centro que começou o ano com grande força. Apesar de arriscada vejo com bons olhos essa alternativa justamente por buscar a ampliação da luta e a consciência da necessidade de manifestar-se por um direito fundamental.

A segunda e que também acredito que ocorrerá, mas de maneira indireta, é juntar-se definitivamente com a pauta da luta pela água, algo que já tem aparecido nos atos do MPL desde a sua segunda edição. Entretanto, são dois os riscos caso o MPL escolha “oficialmente” esta opção: a pauta do transporte pode ficar perdida em meio à luta pela água que é uma questão que vem se agravando nos últimos meses e promete ficar ainda pior daqui pra frente. Com consequências que nenhum governante, analista social ou cidadão pode imaginar e prever. A coisa pode esquentar de um jeito sem precedentes.

Além disso, corre-se o risco de que ocorra outra vez o que se viu em junho de 2013 quando depois do dia 13 de junho – momento da maior repressão policial contra o MPL naquele ano – e que gerou a massificação das manifestações, uma pauta bastante clara e concreta que era a redução do preço da passagem, ficou esquecida em meio a reivindicações genéricas como “contra a corrupção”, “pela saúde”, “pela educação” ou “contra a PEC 37”, alguém lembra o que era isso? O que se viu na segunda quinzena de junho foi um momento em que uma grande parcela da população que até então criticava os manifestantes agora dividia as ruas com os mesmos “vândalos” e baderneiros”. Que fique claro, não se trata de nenhum tipo de sectarismo, onde só determinados grupos podem ocupar as ruas e se manifestar, mas torço para que junho de 2013 tenha servido de lição ao MPL e também a aqueles que saíram às ruas pela primeira vez e que hoje todos possam estar mais maduros politicamente para entender ou ao menos tentar entender como se dão determinadas lutas sociais e a necessidade de coesão e clareza, especialmente em momentos tensos como os que vivemos.

Que o MPL tenha aprendido a lidar e a agregar à sua pauta aqueles que nem sempre ocupam as ruas e que estes últimos possam enxergar com outros olhos os grupos sociais que nos últimos anos tem marcado seu espaço nas ruas de São Paulo e de todo o país lutando por direitos básicos que o Estado brasileiro ainda não nos garante. Algumas ações recentes como pedidos de impeachment, volta dos militares, e a própria falta de apoio ao MPL podem mostrar que estou enganado, mas sou um otimista irredutível e vou sempre acreditar que a minha, a nossa babilônia pode ser melhor e justamente com a força de seus moradores. Uma coisa está clara, as ruas devem ser ocupadas, os direitos reivindicados e a luta deve seguir. Hoje tem Ato em favor da luta pela água e mais um capítulo das lutas paulistanas será escrito. Veremos…

 


fejao

 

Thomas Dreux M Fernandes é graduado em Jornalismo e em História, exerce um pouco dos dois. Mestrando em Humanidades. Escreve para colocar as ideias em ordem. Acredita que o otimismo é o caminho para mudar.. Textos de autoria de Thomas Dreux.

 

 


Como sempre, comentários são bem vindos. Leitor, não esqueça de visitar o canal do XadrezVerbal no Youtube e se inscrever.


Caso tenha gostado, que tal compartilhar o link ou seguir o blog?

Acompanhe o blog no Facebook e no Twitter e receba notificações de novos textos e posts, além de outra plataforma de interação, ou assine o blog com seu email, na barra à direita da página inicial. E veja esse importante aviso sobre as redes sociais.


Caros leitores, a participação de vocês é muito importante na nova empreitada: Xadrez Verbal Cursos, deem uma olhada na página.

botãocursos

Anúncios

6 comentários

  • Feijão, concordo com ambas projeções, e inclusive as vejo como complementares: a atuação na periferia como continuidade da luta pelo passe livre e pelo direito à mobilidade, ainda que o objetivo imediato do cancelamento do aumento seja difícil; e o foco na crise do abastecimento como grande mobilizador da insatisfação social, com potencial até para “um novo junho/13”.

    Quanto ao risco de reeditarmos também a torre de babel daquela segunda onde centenas de milhares foram as ruas sem nem mesmo saber bem por que, pois bem, que seja!

    Só discordo de sua avaliação quando vc diz esperar “Que o MPL tenha aprendido a lidar e a agregar à sua pauta aqueles que nem sempre ocupam as ruas e que estes últimos possam enxergar com outros olhos os grupos sociais que nos últimos anos tem marcado seu espaço nas ruas de São Paulo e de todo o país lutando por direitos básicos que o Estado brasileiro ainda não nos garante.” O MPL fez o papel dele, não cabe ao movimento ditar o que tamanha multidão pensa ou faz; inclusive seu grande mérito é a horizontalidade. Do outro lado, é otimismo demais pra mim…

    Abraço

    • Lui,

      Depois do ato de ontem ficou bastante claro pra mim que as duas pautas transporte/água irão caminhar lado a lado este ano e talvez por alguns anos mais. Quanto à reedição da torre de babel eu também prefiro que as ruas estejam lotadas de pessoas que muitas vezes não sabem bem o porque estão ali do que o nosso marasmo cotidiano.
      Em relação ao que eu espero do MPL talvez não tenha me expressado bem, mas não acho que o MPL deva ditar o que a multidão deva pensar ou fazer, mas sim o MPL e todos os outros movimentos sociais que estão sempre nas ruas e lutando devem melhorar sua capacidade de diálogo com aquela parcela da população que não costuma “frequentar” as manifestações. Digo isso, pois o que vi em 2013 na segunda quinzena de junho foi um abismo entre os movimentos sociais e a enorme massa de “indignados” o que no final das contas fez com que tudo ficasse disperso.

      E muito obrigado pela leitura e comentário.

      Um abraço

  • 7º “Grande”(???) Ato contra a Tarifa – a visão do “repressor”

    Antes de iniciar esse breve relato sobre o 7° Grande ato do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo, vale ressaltar que esta NÃO é a minha versão dos fatos, pois não é baseada apenas no que vi e vivi na tarde/noite de 06 de fevereiro, mas a união de fatos concretos que pude juntar com todas as informações sobre o evento. O que lerão, portanto, é o relato da verdade real dos fatos, e não apenas a minha experiência vivida.

    Como costuma estar no imaginário popular e nas palavras de um grupo ideologicamente interessado em criar uma luta de classes inexistente, em que a polícia sempre é o “repressor” das manifestações, ou seja, age para impedir que elas ocorram ou quer acabar com ela, na base da violência, deixo aqui um rico relato que demonstra a verdade que não querem deixar se revelar: a PM age para que o ato ocorra com segurança e paz, vide que das mais de mil manifestações realizadas no centro de São Paulo em 2014 (todas acompanhadas pela PM) cerca de apenas 0,5% acabaram com algum tipo de violência. Por isso compartilho aqui os detalhes dessa experiência com os leitores do Xadrez Verbal, por entender que todos têm direito ao acesso à verdade real dos fatos, e não apenas a versões parciais sobre o que alguns supostos jornalistas chamam de sua “visão particular” da verdade.

    Na última sexta-feira, dia 06 de fevereiro, tive a honra de comandar o efetivo de policiais que atuaram no “7º grande ato contra a tarifa”, organizado pelo MPL.
    Antes da ação propriamente dita nós trabalhamos no planejamento do policiamento para o evento. Na página do Facebook do ato constavam apenas 3,7 mil confirmados, dentre os quais os famosos “perfis fake”, os moradores de outras cidades, Estados e até países, os fotógrafos e os simpatizantes que registram o seu apoio ao movimento mas não se dignam a comparecer às ruas, nos mostrando que o ato não seria tão grande assim, tanto que a página do FB foi apagada logo após o ato. De qualquer maneira adotamos todas as precauções necessárias, com reuniões prévias com todos os envolvidos, inclusive convidamos os organizadores do evento que, mais uma vez, não compareceram.
    Às 17 horas da sexta-feira nos reunimos sob o Viaduto do Chá, no Vale do Anhangabaú. Várias viaturas e grande efetivo policial, mas sob o viaduto, até aquele momento, nenhum manifestante. Por volta das 18 horas começamos a ouvir o som tímido de um tambor, tocado num ritmo um tanto quanto descompassado. Subi as escadas rolantes da Galeria e me coloquei diante da prefeitura, na calçada, observando os manifestantes que, até ali, se abrigavam sob a marquise do prédio do outro lado da rua, se protegendo da chuva que caía. Pude contar um a um, e constatei que naquele horário não havia mais de trinta pessoas. Aguardei ali por alguns minutos, quando um rapaz, organizador do evento, me interpelou, e eu disse que era o comandante do policiamento naquele dia. Na Praça do Patriarca estavam quatro viaturas com seus respectivos efetivos, e o rapaz, assim como os manifestantes, pareciam entender que esse era todo o policiamento para o evento. Conversei com ele brevemente, disse que aguardaria a definição de percurso que seria fruto da assembleia que realizariam, apenas solicitei que eles evitassem a região da Paulista entre o MASP e a Consolação, por causa das obras da ciclovia na região, para segurança de todos. O rapaz atendeu minha sugestão sem problemas.
    Já perto das 19 horas a quantidade de pessoas se escondendo da chuva sob aquela marquise havia aumentado bastante, já eram quase sessenta pessoas, quando mandei os policiais do CAEP se colocarem defronte ao prédio da prefeitura. Quando o primeiro grupo passou pelos manifestantes o tambor diminuiu seu volume de imediato, eram mais policiais que todo o grupo ali reunido. Logo em seguida um segundo grupo passa pelo mesmo caminho, em direção ao prédio municipal. Dessa vez o tambor perde mais ainda o ritmo e quase para. Os policiais se colocam defronte o prédio, bem no meio da calçada. Se o espaço fosse insuficiente para os manifestantes bastaria reposicionar a linha de policiais um pouco para trás. Não foi necessário.
    Duas meninas, segundo ano de Direito, mais novas que meu filho caçula, vieram conversar comigo. Representavam a liderança do movimento e perguntaram se poderiam ocupar aquela metade de calçada e a que distância dos policiais deveriam ficar. Eu disse que podiam se posicionar tranquilamente, e não havia distância mínima dos policiais. Também autorizei que um “carro de som” encostasse naquele espaço. Qual não foi minha surpresa ao ver que o veículo era um Nissan March, com aparelho de som com microfone e um bandeirão dobrado no seu banco de trás. Instalaram o equipamento, a catraca que mais tarde seria queimada e o bandeirão no viaduto. Começaram a sua assembleia com um público que não precisou ser estimado, pois foi facilmente contado, já que tínhamos acesso às imagens das câmeras do local e da transmissão ao vivo da equipe do “Olho de Águia” e do helicóptero da PM: FATO – eram 80 pessoas, fora os fotógrafos e profissionais de imprensa.
    Nesse ponto foram chegando mais policiais, que chamamos de POP, Policiamento Ostensivo a Pé, reforçando ainda mais a presença policial naquele evento.
    O movimento decidiu o destino, seria o Parque Dom Pedro. Começou o deslocamento, os manifestantes de guarda-chuvas abertos, os policiais andando tranquilamente sob a chuva. As viaturas se juntaram ao grupo, muitas à retaguarda, outras à frente. As duas meninas perguntaram se podiam caminhar ao meu lado, obviamente consenti. Começamos a conversar sobre vários assuntos, falei que meus filhos também estudam em Universidades públicas, conversamos sobre o itinerário, sobre o movimento, sobre a chuva.
    Um rapaz do movimento ia conversando comigo sobre o caminho a seguir, ele não sabia o nome das ruas, mas eu o informei rapidamente, tudo corria na mais completa paz.
    Sobre o Viaduto Maria Paula uma das meninas me perguntou a quantidade de pessoas no ato, eu lhe disse que na concentração eram 80. Ela demonstrou decepção em sua expressão. “Só isso? Mas agora tem mais, não é?”
    “Sim”, respondi, “agora já deve ter mais de cem”.
    “Só isso? Ah, deve ter uns duzentos, trezentos… uns quinhentos pelo menos, vai?”
    Não tinha, não havia como. Nesse instante o articulista do Xadrez Verbal vem até mim. Eu já o havia visto, sempre de longe tirando suas fotos, sem falar com ninguém, manifestante ou policial. Mas ele chega a mim e pergunta:
    “Para a PM quantas pessoas tem aqui?”
    Certamente ele queria a minha opinião, não a “da PM”, e eu lhe disse: “no momento umas cento e vinte, cento e cinquenta pessoas”. Saiu, não me perguntou mais nada. Não contestou minha informação e nem sequer teve a curiosidade de indagar o critério utilizado para tal cálculo. Se ele perguntasse, eu lhe mostraria que naquela pista, de 12 metros de largura, o espaço entre as primeiras e as últimas faixas do ato não passava de dez metros. A matemática nos diz que o movimento ocupava um espaço de, no máximo, 120 metros quadrados. Como a aglomeração ali não era intensa, calcula-se mais ou menos uma pessoa por metro quadrado, portanto o resultado final não pode ser muito diferente do que eu lhe passei. O site do MPL diz que eram mil pessoas, seriam mais ou menos 8,33 pessoas em cada metro quadrado, nem no carnaval de rua de Salvador já se viu algo assim. O articulista calculou umas 800 pessoas, cerca de 6,66 por metro quadrado… eu não vi ninguém sobre os ombros de outra pessoa…
    Prosseguimos na caminhada, continuei conversando com as organizadoras do evento, sempre com uma conversa muito cordial e descontraída. Alguns manifestantes chegaram até mim e disseram, apontando para as viaturas que vinham atrás do grupo de pessoas a pé: “Ih, tem mais polícia que manifestantes! A polícia está se manifestando com a gente”. Eu respondi: “Mas nós estamos em todas as manifestações, contra a tarifa, contra a falta de água, contra a Copa, contra a Dilma, a favor da Dilma… a Polícia Militar é a maior participante de manifestações do mundo!”. Risadas gerais, o clima era de pura descontração.
    Descemos a Av Rangel Pestana, passamos pelo Corpo de Bombeiros. Viramos à esquerda, o rapaz responsável pelo itinerário disse: “vamos virar à esquerda agora”, eu disse que era melhor seguir em frente, sairíamos ao lado do Páteo do Colégio. Ele achou boa a ideia, “É mesmo, é melhor assim, eu estava pensando como se estivesse de carro, esse caminho é melhor mesmo”. Prosseguimos, eles queriam pegar a rua Boa Vista, para depois descer a General Carneiro. Seria uma curva muito fechada em “S”, eu disse que era melhor virar na XV de Novembro. Aceitaram, minha sugestão era melhor. Prosseguimos, quando o movimento parou, antes de entrar na General Carneiro, aguardavam a colocação do bandeirão sob o viaduto da Rua Boa Vista, a imagem seria bacana. Comentei com as meninas, que agora eram três, que o movimento estava parado diante da Bolsa de Valores. Todas disseram que não sabiam que era ali que ela funcionava. Mostrei o Impostômetro, uma delas disse que só conhecia pela Internet, a caminhada estava se mostrando muito instrutiva, ela estava conhecendo a Cidade de São Paulo.
    Prosseguimos, quase chegando ao Parque Dom Pedro eu me adiantei com o rapaz do itinerário, deveríamos definir o local onde seria queimada a catraca. Sugeri um lugar, defronte a passarela do Terminal de ônibus, eu ressaltei que a placa do terminal era visível, a passarela era amarela, as fotos ficariam boas. Gostaram da ideia, ali o ato se encerraria.
    Os manifestantes se aproximavam, no ponto de ônibus algumas pessoas olhavam assustadas. Um manifestante isolado começou a gritar “Deixa passar a revolta popular!” Parecia mais uma revolta individual, mas uma mãe no ponto de ônibus se apavora, abraça os seus três filhos pequenos como que querendo se colocar como um escudo a proteger as crianças. Chego perto da senhora, dou um “boa noite” e digo para ficar tranquila, estávamos ali para protegê-la. A senhora sorri aliviada, coloco os policiais cercando o ponto de ônibus. Queimam a catraca, fazem o jogral, começam a dispersar. Policiais faziam a proteção das estações do metrô, nada de depredações dessa vez, pois constatamos apenas 8 mascarados na manifestação que, acompanhados por policiais, eram perfeitos cidadãos pacíficos.
    A organizadora olha para a catraca queimada, com ar de desolada… “pouca gente dessa vez… foi a chuva… mas é o que tinha prá hoje, fazer o que?”.
    Fiquei com pena da menina, os jornalistas me perguntam: “Alguma reavaliação da quantidade de pessoas?”. Quebrei o galho das meninas: “aumentou sim, umas duzentas pessoas”. As meninas são gente boa, mereciam essa força, e o “repressor” fez questão de dar uma ajuda.

    • thomasdreuxfernandes

      Caro Eduardo, outra vez agradeço pela leitura e comentário. Não sabia que você era responsável por comandar este tipo de operação e em uma próxima ocasião vou lhe procurar para conversarmos com calma. Fico feliz que esteja disposto a contribuir com informações, com o seu relato e sua visão sobre o que ocorreu no último ato do MPL. Digo que se trata da sua visão do ocorrido, pois não considero que exista uma “verdade real dos fatos”, mas sim visões, opiniões e relatos distintos, onde todos, possuem uma visão parcial e baseada em sua formação, criação, atuação, etc. Inclusive o seu. Dessa forma, não há uma “verdade real dos fatos” e sinta-se a vontade em discordar dos meus relatos e opiniões.
      Um exemplo de que a sua visão também é parcial. Você diz que já havia me visto ao longo do ato e que eu não falei com ninguém, policial ou manifestante. O que não se aplica, pois conversei com outros policiais, diversos manifestantes e também muitos colegas de imprensa, ou seja, a sua visão da minha atuação naquele dia foi a de que “eu não falei com ninguém”, uma visão parcial do ocorrido.
      Por fim, lhe peço desculpas por não ter reconhecido você no dia, talvez porque não soubesse do fato de que você atua comandando este tipo de operação, seu nome completo ou visto qualquer foto sua. Você por outro lado me reconheceu, e poderia ter dito na hora, acredito que poderíamos ter conversado pessoalmente, ainda que para discordarmos.
      Mais uma vez obrigado e um abraço.

  • Caro Thomas, permita-me, mais uma vez, discordar de você. Existe sim a verdade real dos fatos, que é o que realmente aconteceu. Nesse sentido, sugiro que releia o meu relato, em nenhum momento eu disse que você “não falou com ninguém”, disse que eu havia visto você em outros momentos naquela data, e em todas as vezes que o vi você estava “de longe tirando suas fotos, sem falar com ninguém, manifestante ou policial”. Isso é um fato.
    Bem diferente de quem não vê uma mulher grávida atingida por um cassetete mas afirma que ela existe, ou não vê um rojão sendo atirado e deduz que ele não existe, e não vê uma pedra sendo jogada mas diz que isso é mentira.

    Como eu destaquei meu relato é baseado em fatos, inclusive quando afirmo a quantidade de pessoas no evento, número cuja justificativa é detalhadamente descrita, baseada em fatos concretos, e não num simples “calculei que eram oitocentos, mas agora eu acho que são mil”, sendo que não havia a possibilidade, segundo as leis da física, de isso ser verdade.

    Simples assim. Grande abraço.

  • Feijão, o blog de vocês é bem bacana, antes de mais nada, parabéns.
    Por gostar muito vou me sentir inclusive a vontade para “atacar” um pouco os ideais aqui. Uso a palavra mais por questão de fazer críticas, mas não virá nenhuma grosseria da minha parte, não faz o meu perfil.
    Não vou debater os protestos em si ou a ação policial, mas sim a ideia de tarifa zero ou de segurar o preço dela.
    Em pouquíssimos lugares do mundo existe uma tarifa zero para o transporte público, e o motivo é claro, ao menos do ponto de vista econômico. É com esse dinheiro que faremos com que o transporte seja melhor, em termos de conforto, segurança, etc. Tudo bem, não temos um transporte a nível de países europeus, mas convenhamos, não é ruim. Uso diariamente o trem, e ocasionalmente o ônibus, e acredito que depois de anos de precariedade atingimos o nível bom para o transporte, espero poder ver o ótimo. O que vimos no passado, e que é amplamente discutido em qualquer curso de economia básica, é que congelar preços não funciona. Você é historiador, talvez saiba até mais do que eu, mas o congelamento de preços falhou por diversas vezes, no Brasil de Sarney, na argentina de Cristina. O motivo é muito simples, ninguém tem incentivo a produzir o melhor, se não vai mudar nada nos seus lucros. Isso é fato e como já disse, comprovado. Além disso, esse congelamento ainda tem o impacto de poder deixar os gastos de produção muito maior que os lucros, prejudicando mais as empresas que fornecem o serviço. Um outro exemplo claro do impacto negativo nesse congelamento é a escassez do produto oferecido ou um produto de baixa categoria. Hoje reclamamos por conta dos ônibus e metros cheios, daqui alguns anos se congelarmos os preços mal teremos transporte, e o que tivermos não terá os mínimos cuidados. O segundo ponto é zerar a tarifa. Esse talvez o maior absurdo já visto como sugestão. Vivemos em um mundo de recursos escassos, dinheiro não é infinito, trabalho não é infinito, mão de obra não é infinita. Por todos esses motivos economistas buscam compreender a melhor forma de alocar recursos. Qual a eficiência de dar transporte de graça a todos quando muitas pessoas podem pagar? Se de 10 pessoas, 2 tem condições suficientes de pagar, é muito mais eficiente que elas paguem e ajudem a manter as condições do transporte mais decentes gerando mais incentivos para as empresas junto com o governo investirem nisso. Não há nenhum motivo para que uma pessoa que ganhe, digamos 5 mil reais por mês, não pague o transporte. Há sim incentivos para que trabalhemos com a ideia de que uma pessoa que ganha 1 mil reais por mês em uma cidade tão cara quanto São Paulo não pague!
    Finalizo com uma prévia de respostas ás pessoas que venham a questionar as empresas de transporte de São Paulo. Antes de mais nada, não não sabemos quanto elas lucram, então parem de dizer que elas lucram muito e por isso não faz mal congelar os preços. Segundo ponto, se lucrassem muito, não saberíamos dizer até onde é eficiência delas que reduziram custos e melhoraram seus processos, e se impedíssemos que elas cobrassem o preço que elas achassem conveniente (junto com o governo) estaríamos causando um desincentivo a futuros investimentos e melhorias. É de se debater sim a ideia de que essas empresas divulguem seus balanços, tenham as devidas auditorias e órgãos reguladores próximos e honestos para que a sociedade não seja punida caso exista ineficiência, corrupção e outros fatores dentro dessas parcerias do governo.
    Uma sugestão para quem gosta de economia e se envolve nos protestos iniciar os estudos em economia (que eu vejo como essencial para quem está na luta): Crash – Uma breve história da Economia
    Uma sugestão (bem) mais pesada: Industrial Organization – Shy (há muita matemática no livro)
    Desculpe me prolongar tanto e novamente, parabéns pelo blog!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s