MPL – O Largo da Batata e a resistência

fejao

Caros leitores, a participação de vocês é muito importante na nova empreitada: Xadrez Verbal Cursos, deem uma olhada na página. Além disso, agora temos uma parceira, a Editora Unesp.

Caros leitores, nosso colaborador Thomas continua a cobertura jornalística dos atos do MPL, fornecendo um relato em primeira mão da manifestação de ontem, em São Paulo, contra o aumento da tarifa. As fotos do post e da galeria de fotos são de sua autoria. O relato do primeiro ato está aqui, e o relato do segundo ato, neste link, e o relato do terceiro ato está aqui e, finalmente, o relato do quarto ato.

Na foto que ilustra o post, ele pode ser visto (ele existe!) agachado, à direita da foto, de camisa branca e calça cinza, trabalhando junto aos outros fotojornalistas. A foto, belíssima, é de Felipe Paiva/R.U.A Foto Coletivo.

Foto:  Felipe Paiva/R.U.A Foto Coletivo

Foto: Felipe Paiva/R.U.A Foto Coletivo

São essas pessoas, jornalistas, fotojornalistas, blogueiros, pessoas da mídia independente em geral, que se arriscam para trazer as informações e fotos, seja aqui, seja em diversos outros espaços. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, inclusive, soltou uma nota sobre jornalistas feridos, citando o episódio dos estilhaços de bomba que cortaram Thomas no tornozelo. Embora a nota diga que ele “trabalha” para o Xadrez Verbal, ele é um colaborador, um parceiro, um amigo. Não tenho nenhuma influência em suas palavras (na verdade, estou escrevendo isso apenas para prevenir, no caso de ele me pedir dinheiro).

Em breve, a galeria de fotos do quinto ato estará no ar.


 

Antes de iniciar esse breve relato sobre o 5° Grande ato do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo, vale ressaltar mais uma vez que esta é a minha versão dos fatos, baseada no que vi e vivi na tarde/noite de ontem. Não irei tentar aqui, compreender ou explicar as causas, porquês e possíveis consequências do que aconteceu. O que lerão é um relato com algumas opiniões pontuais. Não há qualquer tentativa de estabelecer uma única verdade sobre os fatos, esta é apenas a minha experiência vivida.

O 5° Grande Ato do MPL marcou vinte dias de luta contra a tarifa e o aumento nas passagens de ônibus e metrô na Grande São Paulo. O Largo da Batata foi o ponto encontro combinado para que a luta seguisse resistindo. Cheguei ao local pouco depois das 17hs, do lado direito da Avenida Faria Lima já eram dezenas de viaturas da Força Tática da PM, ROCAM e pouco mais de uma centena de policiais. No largo propriamente eram ainda poucos os manifestantes presentes. Uns duzentos no máximo. O calor era forte e sol, entre algumas nuvens que anunciavam chuva, brilhava intenso.

As baterias, grupos de maracatu e bandinhas iam aquecendo seus instrumentos, os presentes ensaivam alguns cantos, a imprensa ia chegando, manifestantes também. Nesse meio tempo representantes do MPL e da PM davam entrevistas. De um lado diziam que o trajeto só seria definido na assembleia que começaria em instantes, de outro a Major Dulcinéia declarava que trajetos que passassem pela Avenida Paulista ou Marginal Pinheiros estavam vetados pela PM e caso optassem por uma dessas vias seriam impedidos.

Pouco antes das 18hs e com cerca de quase duas mil pessoas teve início a assembleia que decidiria qual o trajeto do ato. Foram quatro as propostas e a vencedora foi: Avenida Faria Lima – Marginal Pinheiros – Terminal Pinheiros – Largo da Batata. Em conversa entre representantes do MPL e da PM, a princípio a passagem pela Marginal Pinheiros estava vetada. Entretanto, pouco antes do Ato sair em direção a Avenida Faria Lima foi acordado que a manifestação poderia ocupar a via local da Marginal Pinheiros.

Já eram quase 19h quando os manifestantes saíram em marcha. Aos poucos foram ocupando a Avenida Faria Lima acompanhados de perto por policiais que, de acordo com a Major Dulcinéia, faziam apenas o “balizamento” da manifestação. A Força Tática e a Tropa de Choque acompanharam a distância e “protegiam” propriedades públicas e privadas como diversas concessionárias de veículos, terminal de ônibus, e a subprefeitura de Pinheiros. O helícoptero Águia também acompanhou de perto todo o ato.

A marcha ocorreu tranquilamente durante todo o trajeto proposto. Em frente ao Shopping Eldorado o MPL estendeu uma enorme faixa com os dizeres “Agora é de R$3,00 pra baixo”. Nesse momento uma ambulância que descia a Avenida Rebouças alcançou os manifestantes, que imediatamente deixaram ela passar sem maiores transtornos. Os cânticos, batuques e brincadeiras bem humoradas de alguns manifestantes faziam com que o clima no ato fosse mais tranquilo do que nos últimos.

Ao subir em uma passarela na Rebouças para fotografar pude ter uma boa noção da dimensão do ato. Calculo umas cinco mil pessoas. Diferente de 2013 quando a cada ato o número de manifestantes aumentava, esse ano o poder de mobilização do MPL tem sido mais estável, tirando os dois primeiros atos que contaram com mais de 15 mil pessoas, os três atos seguintes consolidaram uma mobilização de ao menos cinco mil pessoas, chegando a dez mil na última sexta-feira. Sem dúvidas é uma mostra de solidez e resistência. Deixando o recado do MPL bem claro, “não iremos sair das ruas até a tarifa baixar”. O próximo ato já está marcado para quinta-feira no MASP. Desde o 4° ato a pauta da falta de água surgiu em meio às reivindicações contra a passagem. Cartazes de um lado diziam: “Aumento não!” e de outro “Água sim!”. Adiantando talvez, o que vá rolar daqui pra frente já que a água está no fim.

Obviamente quando, um pouco antes de entrar na Marginal Pinheiros, a Tropa de Choque passou a acompanhar lado a lado a marcha a tensão aumentou. Alguns minutos depois o ato estava passando em frente ao Terminal Pinheiros e um grupo de manifestantes começou a gritar e apontar para duas pessoas que estavam em meio a multidão, diziam que estes seriam “P2” (infiltrados da polícia), aos poucos os indivíduos se afastaram e saíram da marcha. Em frente a uma refinada pizzaria na Rua Natingui um senhor começou a bradar ante os manifestantes para que eles parassem de lutar pelos R$0,50 e se preocupassem com os “R$20 milhões da Petrobras”. O homem recebeu alguma atenção da imprensa e de poucos manifestantes, o ato seguiu tranquilo até voltar ao Largo da Batata.

Era o 5° ato, mas somente pela segunda vez um ato do MPL chegou ao fim. Em um jogral realizado no próprio largo os manifestantes comemorarm a finalização do ato, a importância da luta e anunciaram o próximo. Aos poucos deixavam o local e muitos seguiram para a Estação Faria Lima do metrô. Acompanhei alguns até a estação e ao chegar nas catracas pude ver um grupo de policiais da Força Tática em frente a bilheteria e muitos fotográfos junto às catracas, já que um pequeno grupo de manifestantes ameaçava pular a catraca. Fiquei ali por cerca de dez minutos e mesmo que com o clima um pouco tenso, parecia que tudo terminaria bem os manifestantes pareciam dispersar aos poucos e a passagem pelas catracas estava liberada. Assim, após três horas de ato deixei a estação às 22h10 sem ter visto nenhuma vidraça quebrada, pedra jogada, rojão ou qualquer “ataque” contra a PM. Assim como não vi presenciei nenhuma repressão por parte da polícia. Tudo parecia que terminaria bem mesmo.

(Editado 29/01, 12:42) P.S. O que lerão daqui pra frente eu não presenciei, mas dado a gravidade dos fatos acredito que vale o registro. Às 22h20, quando já estava a caminho de casa, recebi uma mensagem de uma colega jornalista perguntando se havia ocorrido algo fora do metrô, pois havia gente tossindo dentro do metro. Segundo ela alguns manifestantes bloqueavam a entrada de passageiros sentando no chão e a polícia ainda não havia agido. Mais tarde, já em casa pude ver um vídeo que expõe a ação da PM contra os manifestantes, nele é possível ver que bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha foram disparadas dentro da estação . Algo que eu espero sinceramente que não esteja nos manuais de treinamento das forças de repressão do Estado. Na mesma reportagem linkada acima a PM justifica a ação ao dizer que uma pedra foi jogada contra os policiais quando estes estavam usando o “os meios necessários para restabelecer a ordem no interior da Estação Faria Lima”. Este outro vídeo  mostra o exato momento em que a PM inicia a repressão. Não consegui ver nenhuma pedra sendo jogada. Na ação foram feridos jornalistas, funcionários do metrô e uma mulher grávida levou um golpe de cassetete na cabeça e passou mal após respirar o gás lacrimogênio. Nada justifica.

 


fejao

 

Thomas Dreux M Fernandes é graduado em Jornalismo e em História, exerce um pouco dos dois. Mestrando em Humanidades. Escreve para colocar as ideias em ordem. Acredita que o otimismo é o caminho para mudar.. Textos de autoria de Thomas Dreux.

 

 


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botãocursos

14 comentários

  • O autor é hilário. Diz que só fala do que VIU, mas afirma que uma mulher grávida foi golpeada por um cassetete… coisa que ele NÃO VIU!!! linca um vídeo de uma pessoa que diz que “inúmeras pessoas desmaiaram no metrô pela ação do GÁS LACRIMOGÊNEO”!!!
    Segundo essa pessoa nem dava para contar quantas pessoas estavam ali desmaiadas. Parece que não foi usado gás lacrimogêneo, talvez gás sarin, ou mesmo algum calmante…

    E mais uma vez (como sempre) as imagens de vandalismo dentro do metrô, vidro quebrado, o autor “não viu”… ainda que divulgado amplamente na imprensa (de verdade) e nas redes sociais.

    Por que será que eu não me surpreendo???

    • thomasdreuxfernandes

      Eduardo, mais uma vez obrigado pela leitura e comentários. Por favor sinta-se livre em colocar aqui os links para os vídeos e outras imagens que você cita no comentário, principalmente o da pedra sendo jogada e das vidraças quebradas. Gostaria mesmo de ver.
      Uma dúvida prática, a PM está treinada e autorizada para utilizar bombas de gás lacrimogêneo dentro de estações de metrô ou qualquer outro ambiente fechado e com grande circulação de pessoas?

  • Detalhe: ele vê um video em que o policial fala que pedras foram jogadas, sua conclusão: “não vi nenhuma pedra” (embora haja imagens de vandalismo praticado dentro da estação).
    E ele vê outro video em que alguém (médico paramédico? enfermeiro? sei lá…) diz que uma mulher grávida levou um golpe de cassetete, sua conclusão: “é claro que isso é verdade, embora também não tenha visto a mulher, o golpe, e nem o ferimento.

    Graduado em jornalismo ele deveria se lembrar do compromisso ético dessa profissão, o compromisso com a verdade. Os dois comentários antagônicos apontados acima demonstram, cabalmente, a intenção do autor.

  • Imagem do vandalismo (que não aconteceu):
    http://i0.wp.com/mobilidadesampa.com.br/wp-content/uploads/2015/01/B8Z3vT8CMAEcBUc.jpg?h=357

    Agora eu aguardo a imagem da mulher grávida sendo atingida por um cassetete.

    • Eduardo, obrigado pelo link e pelo ensinamento. Sigo com a dúvida prática, a PM está treinada e autorizada para utilizar bombas de gás lacrimogêneo dentro de estações de metrô ou qualquer outro ambiente fechado e com grande circulação de pessoas?

      • Caro Thomas, assim que vc publicar as fotos da mulher grávida sendo atingida por um cassetete eu passo a conversar sobre procedimentos operacionais da PM. Por enquanto eu me reservo a comentar tal assunto apenas com jornalistas isentos, cujas dúvidas são notadamente voltadas à verdade dos fatos.
        Grande abraço.

  • E sobre a pedra, eu não disse que vi, apenas que o tratamento da notícia (por um graduado em jornalismo) deveria ser ético. Eu ensino:

    “No local houve um tumulto, segundo o comando dos policiais eles foram recebidos com pedradas, já segundo alguns manifestantes uma mulher grávida teria sido atingida por um cassetete na nuca e estaria gravemente ferida.”

    É isso que se ensina nas faculdades de jornalismo, dar a mesma ênfase às versões apresentadas, sem vaticinar que uma ou a outra versão é a verdadeira, a não ser que haja provas disso. Simples assim.

  • E por falar em ética jornalística, uma matéria interessante sobre o Jabaculê:
    http://www.escritoriodecomunicacao.com.br/noticias/o_jabacule_nosso_de_cada_dia/330

  • Caro Thomas, assim que vc publicar as fotos da mulher grávida sendo atingida por um cassetete eu passo a conversar sobre procedimentos operacionais da PM. Por enquanto eu me reservo a comentar tal assunto apenas com jornalistas isentos, cujas dúvidas são notadamente voltadas à verdade dos fatos.
    Grande abraço.

    • thomasdreuxfernandesT

      Caro Eduardo, o Secretário de Segurança Pública já respondeu quanto ao uso de bombas de gás lacrimogênio dentro de estações do metrô. E aparentemente não foi só um “jornalista anti-ético” que achou descenecessária e desmedida a ação da PM na úlitma terça-feira.

      http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2015/01/30/secretario-diz-que-foi-desnecessario-uso-de-bomba-no-metro-de-sp-durante-protesto.htm

      • Pois é, mas o jornalista antiético não havia usado a palavra “desnecessário”, havia falado sobre treinamento e autorização. Mais uma vez a verdade demonstra a diferença entre profissionais de verdade do jornalismo e os “outros”. Ainda aguardo as fotos da mulher grávida sendo atingida por um cassetete, aí ficarei muito feliz em falar sobre os procedimentos operacionais da PM, as considerações técnicas sobre o uso do gás lacrim ogêneo, a diferença entre CS e CN, a utilização desse material no mundo, e essas “coisinhas” de quem entende “um pouquinho” do assunto. Grande abraço.

      • Mas, de graça, dou mais uma aulinha sobre ética no jornalismo:
        A matéria que vc postou dá as respostas do Secretário à sua pergunta, vejamos:

        Pergunta: “Sigo com a dúvida prática, a PM está treinada e autorizada para utilizar bombas de gás lacrimogêneo dentro de estações de metrô ou qualquer outro ambiente fechado e com grande circulação de pessoas?”
        Resposta do Secretário: “A regra permite excepcionalmente a utilização [de bombas de gás dentro de estações].”

        Um jornalista ético indicaria essa resposta ao seu próprio questionamento.
        E ainda colocaria um outro detalhe, já que ele demonstrou não acreditar nas pedras arremessadas (já que não as viu) _ embora tenha acreditado piamente na grávida atingida por cassetete, que igualmente não viu…
        “sobre eventuais abusos, o Secretário afirmou que haverá averiguação”

        Simples assim, aula grátis. Grande abraço!!!

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