MPL – 3° Ato e o canto que segue

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Caros leitores, nosso colaborador Thomas fornece um relato em primeira mão da manifestação de ontem, em São Paulo, contra o aumento da tarifa. As fotos do post e da galeria de fotos são de sua autoria. O relato do primeiro ato está aqui, e o relato do segundo ato, neste link.

Em breve, a galeria de fotos do terceiro ato também estará no ar.


Antes de iniciar esse breve relato sobre o 3° Grande ato do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo, vale ressaltar mais uma vez que esta é a minha versão dos fatos, baseada no que vi e vivi na tarde/noite de ontem. Não irei tentar aqui, compreender ou explicar as causas, porquês e possíveis consequências do que aconteceu. O que lerão é um relato com algumas opiniões pontuais. Não há qualquer tentativa de estabelecer uma única verdade sobre os fatos, esta é apenas a minha experiência vivida.

20 de janeiro de 2015, data em que o MPL levou seu primeiro grande ato contra a tarifa para fora do centro de São Paulo. Para a Zona Leste. Para o Tatuapé. Por esse motivo inicio esse relato dizendo que para mim o ato começou bem antes de chegar à Praça Silvio Romero. Começou quando entrei no terminal Barra Funda/Palmeiras para pegar a linha vermelha do metrô. Eram pouco mais de cinco da tarde e apesar de ainda não ser o auge do horário de pico o terminal já estava bastante cheio e movimentado. Entrei no trem tranquilamente e conforme ia parando nas estações do centro da cidade a composição foi ficando lotada e ao chegar na Sé o que era ou deveria ser trem de metrô se transformou em um vagão de carga. As pessoas estavam ali amontoadas como qualquer outra coisa que não fossem pessoas, sardinhas, gado, saco de batatas, chame do que quiser, mas aquilo não é digno, não é humano. E infelizmente, se trata apenas de um pequeno exemplo do que é hoje o transporte público em São Paulo. Cada dia mais caótico, lotado, animalesco e caro.

Cheguei na estação Tatuapé por volta das 17h30. Logo após passar as catracas avistei diversos grupos de jovens que pareciam aguardar por amigos para irem ao ato do MPL. Ainda na estação cruzei com quatro ou cinco grupos de aproximadamente dez policiais armados com escudos e cassetetes. Já na Rua Tuiuti enquanto caminhava em meio a uma multidão que se dirigia à estação cruzei com diversos carros da Força Tática e muitos policiais posicionados nas esquinas até finalmente chegar na Praça Silvio Romero às 17h40. O calor era intenso e os manifestantes que já estavam presentes, cerca de 500 nesse momento, tentavam se proteger nas sombras existentes. As faixas do MPL já estavam por lá, assim como alguns grupos de maracatu e percussão. A PM também estava presente, mas em um número muito menor que nos outros atos e com a Tropa de Choque a distância. Na praça estava apenas a Força Tática e algumas motos da ROCAM. Neste momento pude ouvir o Capitão Ubirajara Storai negociando com uma representante do MPL e dizendo que não permitiria que os manifestantes ocupassem a Avenida Radial Leste no sentido bairro.

Como de costume conforme o tempo foi passando o número de manifestantes foi crescendo e no momento em que a assembleia para decidir o trajeto foi iniciada – por volta das 18h10 – já eram cerca de duas mil pessoas presentes (pelos meus cálculos). Dessa vez a escolha do percurso se deu de maneira tranquila e com quatro propostas a serem defendidas, a assembleia foi rápida e o trajeto escolhido foi o que havia sido indicado pelo MPL, fazendo um longo recorrido pelo bairro do Tatuapé passando por diversas ruas residenciais como: Rua Serra de Bragança, Rua Serra do Japi, Rua Platina, Rua Fernando Pinheiro para finalmente chegar na Avenida Radial Leste onde seguiria sentindo centro até a Estação Belém do metrô para chegar ao ponto final do trajeto no Largo do Belém.

Eram pouco mais de 18h40 quando o 3° Grande Ato do MPL deixou a Praça Silvio Romero e começou seu percurso pelo bairro. O público presente repetia o dos atos anteriores, Punks, black blocks, estudantes universitários, colegiais, professores, moradores de rua, senhores de idade, mães, pais, filhos. Do meio a multidão pude avistar o deputado federal Ivan Valente do PSOL, observando da calçada o ato. Diferente dos dois primeiros atos, a PM não vez o já tradicional “envelopamento” da manifestação e enquanto esta seguia pelas ruas residenciais do bairro apenas acompanhou a distancia com motos e algumas viaturas. O trajeto pelas pequenas ruas do Tatuapé foi bastante tranquilo e sem nenhum momento de tensão com a polícia, manifestantes cantavam e chamavam pra rua os moradores dos prédios de classe média/alta da região que de suas janelas e varandas observavam o ato. Em determinado momento funcionários de uma loja do McDonalds foram até a janela segurando cartazes onde se via: “Aumento não!” fazendo com que os manifestantes vibrassem com o apoio dos trabalhadores. Ainda nas ruas do bairro o ato parou para ouvir as palavras de um metroviário que havia sido demitido na greve do inicio de 2014 e de um representante dos motoristas e cobradores de ônibus. Ambos estavam ali para prestar solidariedade ao movimento e dar força aos manifestantes na luta contra a tarifa. Suas palavras foram recebidas muito bem, mas naquele momento a maior parte do ato já gritava “Radial, radial, radial, radial”, em uma clara demonstração de que queriam logo ocupar a principal via da região.

Em mais alguns minutos o ato tomou a via sentido centro da Avenida Radial Leste, somente naquele momento consegui ter uma dimensão real do tamanho da manifestação e pelos meus cálculos, acredito que estavam presentes cerca de 6 mil pessoas. Confesso que a sensação de ocupar a pé e no horário de pico aquela que é a maior avenida da região e uma das maiores da cidade é muito boa. Sinto que cada vez que alguma manifestação tira os carros de seu lugar, de sua mesmice cotidiana a cidade, o espaço público é aos poucos retomado por seus moradores. O ato seguiu tranquilamente pela avenida, ao passar pela estação do Tatuapé do metro diversos usuários observavam da passarela e rampas de acesso. Nesse momento um grupo de policiais fez um acompanhamento mais próximo para evitar que os manifestantes ocupassem o outro sentido da avenida, entretanto, sem nenhum tipo de conflito. Dessa forma os manifestantes caminharam em paz até se aproximarem da estação Belém do metrô.

Ao chegar na estação estava formado um verdadeiro “corredor polonês” da Tropa de Choque que com seus uniformes de “power ranger” ou “robocop” esperava pela manifestação. Assim que a faixa “Contra a tarifa” – utilizada pelo MPL para demarcar o início da manifestação – passou, a tropa fez o chamado “envelopamento” dos manifestantes. Obviamente nesse momento o clima ficou mais tenso, jornalistas e fotógrafos já colocavam seus capacetes e máscaras de gás, black blocks reforçavam suas máscaras, policiais sacavam seus cassetetes, o conflito parecia próximo. Felizmente nada ocorreu. Apesar de outro momento tenso quando os seguranças do metro não deixaram o MPL esticar uma faixa na passarela de acesso à estação Belém e algumas discussões entre fotógrafos e membros do MPL o ato seguiu seu caminho, subiu no viaduto Guadalajara, onde foi esticada a enorme faixa. Do alto do viaduto pude ver que após quase de minutos que o ato havia deixado a Avenida Radial Leste esta ainda estava interditada nos dois sentidos pela PM. O porque eu não consegui entender. Os motoristas buzinavam incessantemente para as viaturas da Força Tática que impediam a passagem dos carros. Do viaduto até o Largo do Belém faltavam poucos metros e o finalmente o MPL conseguiu levar um ato até o final, o que foi motivo de muita comemoração por parte dos manifestantes que prometeram: “Sexta-feira vai ser maior”. A Tropa de choque acompanhou e cercou o ato até o final. Não vi nenhum tipo de agressão em ambos os lados, apesar do aumento da tensão.

Poucos minutos após o fim “oficial” do 3° Grande Ato, os manifestantes dirigiram-se até a estação Belém do metro, novamente acompanhados de perto pela Tropa de Choque. Ao chegar na estação alguns gritavam “Pula catraca, pula catraca!” O que fez com que os guardas do metro fechassem a estação, a PM se posicionasse e os manifestantes ficassem em fúria, os gritos agora em de ódio e raiva. Ouviram-se xingamentos aos guardas e policiais, mas principalmente gritos de “Deixa passar. Deixa passar a revolta popular” ou “Polícia Fascista”. Alguns arremessaram pedras e tentaram chutar os enormes portões de ferro da estação, mas sem sucesso. Em menos de cinco minutos chegaram correndo na estação um novo grupo da Tropa de Choque e um grande contingente da Força Tática o que assustou a maioria dos presentes, principalmente usuários. Há um vídeo em que se pode ver um policial da Força Tática entrando na estação com uma metralhadora com munição letal. (https://www.youtube.com/watch?v=V6D1L6XUZng)

A tensão era enorme. A PM apontava suas armas para manifestantes desarmados que estavam a menos de dez metros de distância e não tinham pra onde correr, policiais empunhavam bombas de gás. Nessa hora esperava pelo pior. Em meio a uma gritaria de “calma, calma”, “não tem saída, não tem pra onde correr”, “covardes”, “fascistas” um pequeno grupo começou a cantar, sim cantar. Cantavam calmamente o Canto das três raças de Clara Nunes e em um daqueles momentos em que tudo se encaixa, fez-se o silêncio no tumulto e ecoavam pela estação os versos: “Negro entoou/ Um canto de revolta pelos ares/ No Quilombo dos Palmares/ Onde se refugiou/ Fora a luta dos inconfidentes/ Pela quebra das correntes/ Nada adiantou/ E de guerra em paz/ De paz em guerra/ Todo o povo dessa terra/ Quando pode cantar/ Canta de dor”. Que cena.

Com o passar do tempo a tensão dentro da estação foi diminuindo e aos poucos os usuários voltaram a utilizar o serviço, apesar do enorme contingente policial presente. Em determinado momento percebi uma rápida movimentação da Força Tática e Tropa de Choque em direção ao lado de fora da estação e pude escutar do outro lado da Radial Leste uma bomba de efeito moral explodindo. Mas foi a única que ouvi. Peguei o metro na própria estação Belém às 21h45. E assim terminou de fato o 3° Grande Ato do MPL, sem repressão, sem prisões e sem depredações. Que o povo desta terra possa continuar cantando, não de dor. Mas de alegria.

A luta segue.

 


fejao

 

Thomas Dreux M Fernandes é graduado em Jornalismo e em História, exerce um pouco dos dois. Mestrando em Humanidades. Escreve para colocar as ideias em ordem. Acredita que o otimismo é o caminho para mudar.. Textos de autoria de Thomas Dreux.

 

 


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6 Comentários

  • E uma bilheteria do metrô foi arrebentada… e paredes do metrô foram pichadas… e o autor estava lá mas não viu nada disso, estava ocupado olhando as pessoas cantarem…
    Conveniente a técnica de “relatar apenas o que eu vi”:
    _Olha lá, estão quebrando aquela bilheteria!!!
    _ Não, isso eu não estou vendo!
    _ Mas estão quebrando!
    _ Eu só estou vendo alguém jogar “umas pedrinhas”
    _ Mas como eles acharam “umas pedrinhas” DENTRO da estação do metrô??? Será que eles já vieram ARMADOS com essas pedras???
    _ Ah, isso eu também não vi…
    _ Mas você disse que a Polícia apontava para “manifestantes desarmados”… E as tais “pedrinhas”???
    _ Sei lá, deviam ser pedrinhas transparentes, só sei que EU NÃO VI isso. Só vi que eles “tentaram” chutar os portões, mas SEM SUCESSO!
    _ Ué, seguraram os pés dos “manifestantes”? Como alguém “tenta” chutar um portão mas não obtém sucesso nessa tentativa? Câimbra???
    _ Não sei, eu só vi que eles tentavam chutar mas não conseguiam, mas como isso acontecia eu não vi. e eu só escrevo O QUE EU VI!!!

    Mas tudo bem, o importante é que eles cantaram. 😀

  • Pingback: 3º Ato contra a tarifa – 20/01 – Fotos | Xadrez Verbal

  • thomasdreuxfernandes

    Eduardo, mais uma vez obrigado pela leitura e comentários. Sem dúvida alguma eles enriquecem o relato e a reflexão.
    Um abraço.

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