O Ato que não acabou está só começando

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Caros leitores, nosso colaborador Thomas fornece um relato em primeira mão da manifestação de hoje, em São Paulo, contra o aumento da tarifa. As fotos do post e da galeria de fotos são de sua autoria. Ele insistiu que o relato fosse publicado o quanto antes, para servir de contraponto ao jornalismo dos grandes veículos e suas coberturas que repetem a palavra vândalo de dois em dois minutos. Aqui está.

Vocês também podem ver a galeria da cobertura fotográfica do ato, também realizada pelo Thomas.


Antes de iniciar esse breve relato sobre o que ocorreu no 1° Grande ato do Movimento Passe Livre (MPL) deste ano em São Paulo, vale ressaltar que esta é a minha versão dos fatos, baseada no que vi e vivi na tarde/noite de hoje. Não irei tentar aqui, no calor do momento, com a adrenalina à mil, compreender ou explicar as causas, porquês e possíveis consequências de tudo que aconteceu. O que lerão é um relato com algumas opiniões pontuais. É também um desabafo.

Cheguei ao Teatro Municipal por volta das 16h45 e por lá encontrei, pelos meus cálculos, umas duas mil pessoas. Confesso que pela hora era muito mais do que imaginava. Com o tempo, o número de manifestantes, policiais e membros da imprensa aumentou consideravelmente. Lá pelas 17h15 – hora em que começou a assembleia para definir o trajeto – já eram umas quatro mil pessoas (novamente esse é um cálculo meu, baseando-me nas experiências que tive nos atos do MPL de 2013 e outras manifestações do MTST que acompanhei nos últimos anos).

A assembleia organizada pelo MPL foi uma inovação em relação aos atos de 2013 e serviu para democratizar o ato e definir em conjunto com os ali presentes o trajeto que a manifestação seguiria. Foi então aberta a possibilidade de qualquer pessoa que estava ali enviar sua proposta de roteiro para que esta fosse então submetida a votação. Além disso, cada proposta teria três minutos para ser defendida por qualquer um dos presentes. Ao final de alguns minutos e muitos pedidos de que todos se sentassem para que a assembleia pudesse caminhar tranquilamente, foi votado e decidido que o trajeto seria sair do Teatro Municipal e seguir pela Praça da República, Rua da Consolação, terminando na Praça do Ciclista (esquina da Consolação com a Avenida Paulista). Ao longo de todo o período da assembleia a PM e a Tropa de Choque cercaram e filmaram a manifestação.

Pontualmente às 18hs a manifestação recheada de bandas, fanfarras, maracatus, bandeiras diversas que iam desde partidos políticos (entre eles o PT, creiam), passando por antifascistas, grupos anti-partidos, coletivos de esquerda, etc. Além disso, estavam presentes punks, black blocks, estudantes universitários, colegiais, professores, moradores de rua, senhores de idade, mães, pais, filhos, cidadãos dos diversos tipos, origens e até mesmo ideais. A caminhada começou um pouco tensa e acompanhada muito de perto pela tropa de choque e o “pelotão do braço” (policiais com colete verde e capacete especialistas em artes marciais), debaixo de forte calor os milhares de manifestantes seguiram pela Praça da República e avenida Ipiranga, até chegar na Rua da Consolação, onde pude ter uma real dimensão do ato e da enorme quantidade de pessoas ali reunidas.

Quando cheguei na esquina da Rua da Consolação com a Rua Caio Prado Junior, onde no dia 13 de junho de 2013 teve início a pior repressão que o MPL sofreu nos últimos anos, pude ver quantos éramos. Milhares. Eu diria dezenas de milhares, pelo menos umas quinze mil pessoas. Naquele momento em que eu estava no meio da multidão, pude ver a massa tomando as duas vias da Consolação e não enxergava o final do ato, via uma linha da Tropa de choque ilhada no meio dos manifestantes, naquela hora senti um misto de sensações. Ao mesmo tempo que sentia uma enorme alegria de estar ali, podendo ver e experimentar aquela energia toda, um orgulho enorme de ver a minha cidade se movimentando, lutando, seguindo em frente, e algo que ainda não sei descrever, que é poder ver a história se fazendo na minha frente. Naquele cruzamento, onde a quase dois anos levei um tiro de borracha na perna, onde a PM reprimiu violentamente uma manifestação idêntica, eu sentia que havíamos ganho algo simplesmente por cruzar aquelas ruas pacificamente. Entretanto, durou pouco.

Três quadras mais pra frente a PM tentou liberar uma das vias da Consolação o que fez com que os black blocks que estavam na linha de frente do Ato ultrapassassem a faixa do MPL e desgarrassem do resto do ato. Cerca de cem metros adiante, após algumas tentativas de reagrupar o ato, o clima ficou tenso, um colega fotógrafo me relatou que um garoto foi agredido por um policial, o que fez com que os demais manifestantes a sua volta revidassem, algumas bombas foram lançadas e outras tantas cacetadas dadas. Nessa hora foram presos dois manifestantes e formou-se rapidamente uma linha da Tropa de Choque na via que desce a Rua da Consolação, entretanto, alguns manifestantes já estavam quase na estação Paulista da linha amarela do Metrô. O que fez com que outra linha da Tropa de Choque começasse a descer a rua para “proteger” a estação. Entre os dois contingentes policiais havia cerca de duzentos metros.

Em um momento em que eu estava a poucos metros da primeira linha do Choque e a poucos metros da esquina da Rua Matias Aires com a Rua da Consolação, a Tropa de Choque começou a atirar deliberadamente nos manifestantes (como se pode ver no vídeo). A partir daí a coisa degringolou a e a PM perdeu a linha. Foram muitas as bombas de gás lacrimogênio, efeito moral, tiros de borracha para todos os lados, cacetetes acertando pessoas sem critério algum. Na hora corri para a Rua Matias Aires me esquivando das bombas espalhadas pela rua e buscando abrigo. Ao entrar na rua, em frente ao bar “Sujinho” parei para tirar algumas fotos, pude ver policiais do choque atropelando mesas e cadeiras do bar que estavam colocadas na calçada e, em um momento de distração, os policiais se aproximaram de mim e, quando estavam a menos de dez metros, vi que um deles corria em minha direção, virei de costas e corri com toda a velocidade que pude. Os manifestantes, eu inclusive, buscaram abrigo entre os carros que desciam a Rua Bela Cintra, pois os policiais não jogam bombas entre os carros dos “cidadãos de bem”. Corri mais uma quadra e pude ver uma cena inacreditável, os policiais ao tentar acertar os manifestantes, começaram a jogar bombas dentro de um posto de gasolina (!?)

Depois disso, junto com manifestantes já dispersos, mas ainda em um número considerável, subi Rua Augusta até a Avenida Paulista, esta subida foi perseguida pelo Choque que, ao chegar na Avenida Paulista, não poupou munição e tentou dispersar aqueles que ainda estavam ali. Após isso as coisas se acalmaram um pouco e pude ver o aparato repressivo da Polícia Militar, cavalaria, centenas de policiais do choque, dois caminhões, dezenas de viaturas, armas de bala de borracha, lançadores de granada, bombas, armas de paintball, policiais mascarados (segundo a própria PM eles vestiam um EPI – Equipamento de Proteção Individual) com balaclava para proteger de coquetel molotov. Após alguns minutos de tranquilidade a Tropa de Choque novamente atacou um pequeno grupo de manifestantes que tentava ir da Praça do Ciclista em direção a Avenida Paulista.

Em frente a estação Paulista da Linha Amarela a PM estavam reunindo todos os detidos no dia, de acordo com o Twitter da PM foram 51 os presos. Nessa hora, manifestantes ainda gritavam palavras de ordem como: “soltem nossos presos” e “amanhã vai ser maior”. A truculência policial não havia terminado e foram muitos os empurrões e cacetadas naqueles que tentavam se aproximar dos presos. Observadores legais que acompanharam de perto toda a ação da policia faziam muitas críticas ao trabalho da corporação, um deles inclusive havia sido agredido e estava a caminho do hospital.

Às nove horas da noite, após tomar duas garrafas de água em um gole só, eu estava me preparando para deixar o ato e voltar pra casa quando um grupo de manifestantes e uma bandinha com cornetas e tambores voltou a esquina da Consolação com a Paulista, puxando os mesmos cânticos do início do ato. Uma mostra de que a força resiste e a luta segue. Após esse suspiro de esperança, depois de um dia de truculência e violência, voltei caminhando pra casa.

Um desabafo: São Paulo, você é grande, forte e plural demais para parar na repressão e truculência de sua policia, não se disperse, se una ainda mais. Essa é a hora. Tenha força. Resista. Lute. Nós paulistanos, moradores desta cidade que é uma selva e ao mesmo tempo um lugar incrível é que a construiremos do jeito que queremos. Repito aqui o que disse após as desastrosas eleições do último ano, São Paulo eu não vou desistir de você.

 


fejao

 

Thomas Dreux M Fernandes é graduado em Jornalismo e em História, exerce um pouco dos dois. Mestrando em Humanidades. Escreve para colocar as ideias em ordem. Acredita que o otimismo é o caminho para mudar.. Textos de autoria de Thomas Dreux.

 

 


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