A capa que diz “eles sabiam de tudo”: golpeie, democracia!

Em 1865, logo depois da Guerra Civil Americana, o poeta Walt Whitman publicou sua coletânea Drum-Taps (Bater de Tambores, em tradução do blog). Os cinquenta e três poemas da coletânea tratavam das experiências do autor durante a guerra, especialmente sobre seu serviço voluntário nos hospitais de campanha, cuidando dos feridos. Whitman era um defensor dos princípios democráticos naquela sociedade clivada pela guerra, travada em torno da relativização dos direitos e da escravidão. No poema Rise O Days from your fathomless deeps (Ascendam Ó Dias de seus insondáveis abismos), Whitman elabora o verso: Thunder on! stride on, Democracy! strike with vengeful stroke! Traduzindo as palavras: Troveje! Galgue adiante, democracia! Golpeie com golpes vingativos! A manifestação do sentimento é: a democracia deve prevalecer e não pode aceitar ser atropelada e ofendida.

Reprodução

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Muitos já sabem ou saberão em breve. A próxima edição da revista Veja foi “antecipada” para hoje, sexta-feira, dia 24 de Outubro. Em sua capa, reciclada de uma arte de dois anos atrás sobre uma novela, os rostos de Dilma Roussef e Lula e a afirmação: Eles sabiam de tudo, referente ao esquema de desvio de dinheiro denunciado por Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef. A revista teria acesso ao depoimento de Youssef dessa última semana, em que ele afirmaria que “no Planalto sabiam de tudo”, e citado Dilma e Lula. O alvoroço foi geral. A revista de maior circulação do país solta, de forma antecipada, uma capa em que afirma o envolvimento da atual Presidenta. Menos de setenta e duas horas antes do pleito que decidirá sua reeleição e antes do último debate televisivo entre os candidatos.

Algumas horas depois, o jornal O Globo publica matéria apontando a denúncia da revista Veja. A matéria contém declarações de Antonio Figueiredo Basto, advogado de Youssef. Basto afirma desconhecer esse tipo de declaração. Também afirma estar surpreso e que todos os depoimentos foram acompanhados por advogados de sua equipe. Finalmente, alerta: “É preciso ter cuidado porque está havendo muita especulação.”. Em seu blog, Reinaldo Azevedo, um dos principais articulistas da Veja, ao tratar do tema, é mais cauteloso: no título do post sobre o assunto, escreve “se for verdade, é matéria de impeachment”. A conjunção condicional é bem diferente da capa, categórica. Tal como no poema de Whitman, a democracia deve trovejar e galgar adiante.

A sociedade brasileira, hoje, está fissurada. A exposição de algumas velhas feridas ainda não cicatrizadas faz dessa a eleição mais disputada e apertada da História democrática brasileira. Obviamente, não é como a fratura de um país em guerra civil, contexto histórico de Whitman. O Brasil, por sua vez, ao contrário do país do poeta, não possui uma grande tradição democrática. Presenciamos apenas sétima eleição direta consecutiva com o voto direto e universal, o que constitui a maior sequência da História nacional. Uma democracia ainda em processo de consolidação, que precisa se fortalecer com as piores crises. Somente assim será progressivamente corrigido o déficit de cultura política democrática.

Na presente situação, a democracia foi corrompida. Por quem, ainda não se sabe. Usando a mesma conjunção condicional. Se as acusações reproduzidas pela Veja forem concretas, provas materiais forem compiladas e uma acusação formal se sustentar, sim, é caso de impeachment da Presidência. Dilma Roussef estaria, de forma comprovada, envolvida em um caso de desvio de dinheiro público. Precisamente, a corrupção da república democrática. Todo o procedimento deveria ser feito de acordo com os princípios da lei e das instituições democráticas. Um impeachment decorrente do devido processo legal, em caso, novamente, de comprovação substancial das acusações. Não há legitimidade para revoluções, muito menos para golpes de estado ou quarteladas. Surpreendentemente, deve-se citar José Sarney: a democracia brasileira cresce quando não se bate mais nas portas dos quartéis em momentos de crise.

Não se trata de legitimar a capa da revista, mas de fazer o exato contrário dela: manter as possibilidades abertas e não afirmar nada até provado. Deve-se notar o tempo verbal empregado em algumas frases do parágrafo anterior. Não há, no momento, material concreto. O que existe é uma frase de um delator em um depoimento que supostamente vazou. Tal frase é discutida pelo defensor constituído do delator. E, mesmo em tamanha falta de substância, é publicada na capa, como uma afirmação. “Eles sabiam de tudo”. Nas circunstâncias, tanto políticas e jornalísticas, quanto do momento, caso isso não seja provado, seria a revista Veja que estaria corrompendo a democracia. O conteúdo da revista precisa ser provado para justificar a mudança da data de publicação da revista, colocando-a em momento extremamente sensível. A capa não acusa, não levanta a suspeita, não investiga. Ela afirma.

Sim, a democracia presume liberdade de imprensa; mais que isso, é essa liberdade que alimenta uma democracia. Parte tão essencial do livre discurso, entretanto, é a responsabilidade pelas palavras. Publicar nesse pequeno blog que uma pessoa cometeu um delito requer provas; caso contrário, o indivíduo caluniado merecerá indenização, com justiça. Afirmar falsamente que a Presidenta da República estaria envolvida em um esquema de desvio de dinheiro, na capa de uma revista de grande circulação e na véspera de uma eleição, requereria proporcional reparação. Calúnias e estelionatos eleitorais também ofendem e subvertem a democracia.

Qualquer desenrolar de eventos que não compreenda as duas opções acima seria um retrocesso na democracia brasileira. Comprovado o envolvimento de Dilma Roussef no desvio de verbas e isso resolvido de forma violenta, golpista ou apenas impune. Asseguradas as denúncias e restando que Dilma Roussef não teve participação em transgressões, a revista Veja sair incólume da situação. Todas essas hipóteses seriam inaceitáveis, pois é nesses momentos que a democracia deve se fortalecer. Demonstrar a força institucional do país e contribuir para o processo de consolidação republicana no Brasil. Reaproximar a sociedade de si mesma, deixando para trás dogmas obsoletos de traumas passados. Tudo isso por meio da Democracia, que não pode ser calada, deve trovejar. E golpear, com golpes vingativos, os responsáveis pelas ofensas sofridas.

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assinaturaFilipe Figueiredo, 28 anos, é tradutor, estudante, leciona e (ir)responsável pelo Xadrez Verbal. Graduado em História pela Universidade de São Paulo, sem a pretensão de se rotular como historiador. Interessado em política, atualidades, esportes, comida, música e Batman.

 

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8 Comentários

  • A imprensa tem não só o direito mas a obrigação de investigar e divulgar casos de corrupção, desde que existam provas concretas da veracidade de suas denúncias. Não é de hoje que a veja estampa capas caluniosas e em edições seguintes minúsculos parágrafos retratando-se, quando muito. Segundo nossa constituição, tão importante quanto a livre manifestação de pensamento é o “direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem”. Comprovada a falsidade da denúncia, não seria a hora de uma capa, tão alardeante quanto, retratando-se?

  • Verdade é dizer que se ela não sabia é algo ainda pior, por que demonstra toda sua incapacidade administrativa já que é ela quem indicou todos os corruptos.

  • Não cabe à imprensa o papel de investigação. Este pertence à policia , neste caso à Federal. Como historiadora sei (porque leio e investigo os discursos que desejam produzir verdades) a historicidade da revista VEJA. É importante lembrar que essa é uma prática comum da revista não apenas em vésperas de eleição. Ela produz opinião pública de forma preconceituosa. Um artefato cultural que quer ser respeitado deve apresentar opiniões com ética e responsabilidade.Posso dar alguns exemplos de falta de responsabilidade e de ausência de ética da revista VEJA. Anunciou de forma preconceituosa a morte de cazuza. ; Por várias vezes acusou o MST de vários crimes. Investiu contra Gushikin, na época ministro de Lula, na qual o acusou de ter pago 3.990 reais por um vinho famoso. Foi provado, na justiça, que foi um almoço, pago em cartão, de 399,00 reais! Investiu contra a jornalista Miriam Leitão, fazendo deboche da tortura sofrida por ela durante a ditadura. Em quem podemos dar credibilidade? na revista veja ou no doleiro? Pesquisem, se desejarem, sobre os exemplos e outros mais dados acima. Um forte abraço a todos e todase boa eleição.Nilda Câmara de Araújo. Professora de História da UFCG.

  • Pingback: Resumo da Semana – 19/10 a 25/10 | Xadrez Verbal

  • E agora quem cometeu estelionato eleitoral? Quem afirmou falsamente?

    A capa da Veja infelizmente disse mais do que a verdade, mas pior foi reclamar na época disto pois nem a Presidente conseguiu refutar com fatos o q a revista dizia. E com as delações premiadas e conversas telefônicas divulgadas, sabemos porquê.

    • Carlos Alberto, primeiro, a “reclamação” era, e é, totalmente legítima, já que as delações de Youssef não possuem substância sobre o caso citado. A capa fala especificamente de Youssef, não de executivos de empreiteiras.

      Segundo, sobre sua frase “nem a Presidente conseguiu refutar com fatos o q a revista dizia”, o ônus da prova é de quem acusa, não do acusado.

      Finalmente, repito o trecho: “Se as acusações reproduzidas pela Veja forem concretas, provas materiais forem compiladas e uma acusação formal se sustentar, sim, é caso de impeachment da Presidência. Dilma Roussef estaria, de forma comprovada, envolvida em um caso de desvio de dinheiro público. Precisamente, a corrupção da república democrática. Todo o procedimento deveria ser feito de acordo com os princípios da lei e das instituições democráticas. Um impeachment decorrente do devido processo legal, em caso, novamente, de comprovação substancial das acusações.”

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