A crise partidária: O sumiço das estrelas vermelhas e dos tucanos

Sexta-feira, dia Dez de Outubro, a Coluna Esplanada, de Leandro Mazzini, afirmou que a campanha da Presidenta, e candidata à reeleição, Dilma Roussef omite o Partido dos Trabalhadores do material eleitoral. Segundo Mazzini, a intenção seria dissociar a imagem de Dilma do partido “manchado no noticiário” e não teria agradado todos da cúpula do partido. A reação das pessoas ao divulgar a nota, ou seu conteúdo, na internet era de afirmar que a medida é uma demonstração de mero interesse eleitoral, desfaçatez e adjetivos similares. A situação, entretanto, pode ser mais complicada que isso.

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De fato, caso o leitor acesse o site oficial da campanha de Dilma Roussef, verá apenas duas menções explícitas ao PT na página inicial. No cabeçalho, junto aos botões de redes sociais, um botão para o link do site oficial do Partido dos Trabalhadores; o botão consiste do logotipo do PT alternado com o número 13, legenda do partido. No rodapé do site estão elencados os partidos (inclusive o PT, obviamente) da coligação Com a Força do Povo, assim como o CNPJ da campanha, de acordo com a lei eleitoral. Uma terceira, quase imperceptível, está no banner de divulgação da hashtag “Mais esperança, menos ódio”.

No material de campanha, a maior parte das menções ao PT são implícitas e estéticas. A mais óbvia está na própria marca da campanha: o nome Dilma, estilizado em vermelho e com uma estrela como “pingo” da letra I. No restante do site e no material disponível para download, como papéis de parede, as menções ao PT giram em torno dessa dupla: a cor vermelha e estrelas, sem um letreiro explícito dizendo, por exemplo, “Partido dos Trabalhadores” ou uma estrela com a sigla PT dentro de seu contorno. No site da militância de campanha, o Muda Mais, as menções ao PT sequer são implícitas. Mesmo na escolha das cores, é necessário clicar um pouco para achar algo relacionado diretamente ao PT.

Como dito, a situação fica mais complicada. Não se trata de apenas apontar o dedo para o outro lado, mas de ver um panorama geral. Acessando a página oficial da candidatura de Aécio Neves, rival de Dilma Roussef no segundo turno das eleições presidenciais, vemos três menções ao Partido da Social Democracia Brasileira, todas no rodapé. Um logo do tucano do PSDB, que leva ao site oficial, uma opção de menu que leva aos diretórios de campanha do partido e, finalmente, o site também cumpre a lei: o PSDB e os demais partidos da coligação Muda Brasil estão listados ao lado do CNPJ da campanha.

Tal como a campanha da petista, a campanha de Aécio também disponibiliza material para download e também possui um site de militância, o Vamos Agir. Ambas as fontes abundam em referências às cores do partido, que são as mesmas cores da bandeira nacional, e ao número da legenda do PSDB; algo extremamente compreensível, já que, do ponto de vista eleitoral, o 45 e o 13 são as informações que o eleitor não pode prescindir. Novamente, entretanto, tudo gira em torno das cores, do número e do logo de campanha, o nome de Aécio estilizado. Não há menção ao PSDB ou ao seu tucano.

O site da candidatura de Marina Silva ainda está no ar, e atualizado com a declaração de apoio da ex-candidata ao concorrente Aécio Neves. E segue basicamente a mesma fórmula. No banner superior, os logos do Partido Socialista Brasileiro e do Rede, além da lista dos demais partidos da coligação Unidos Pelo Brasil. Uma aba no menu superior leva ao site do PSB e, no rodapé, junto do CNPJ da campanha, links para todos os sites de todos os partidos da candidatura derrotada. Talvez a única diferença concreta seja essa abundância de links. Difícil achar alguma menção explícita ao PSB e o vermelho, cor do partido, é timidamente presente.

Afinal, qual a suposta complicação demonstrada nesses exemplos? O esvaziamento do debate político brasileiro fica explícito, esfregado na cara de qualquer cidadão. Leandro Mazzini apontou essa característica na campanha de Dilma, mas ela é universal: os três principais candidatos adotam uma linha muito mais publicitária do que política. Um logotipo bonito, neutro, e um material esteticamente agradável são, certamente, muito mais fáceis de serem aceitos no Brasil todo. E quando os símbolos de dois dos principais partidos políticos do Brasil são foco de rejeição, temos um problema.

O segundo momento das manifestações de Junho de 2013 explica muito bem esse raciocínio de marketing. No suposto ímpeto de manter manifestações “apartidárias”, militantes foram agredidos, bandeiras recolhidas, tudo em meio a gritos como “sem partido”. O cidadão brasileiro está em um momento extremamente cético sobre a representação partidária (para usar termos brandos). O problema é que a estrutura política centrada em partidos é essencial para o funcionamento de uma democracia. E isso foi dito aqui nesse espaço mais de um ano atrás, mesmo com o pouco tempo de existência do blog.

O esvaziamento da representação partidária, no mínimo, demonstra o esvaziamento do debate político brasileiro, já citado. No outro extremo, ameaça a própria democracia, já que o que resta é a desconfiança do sistema político e a construção de imagens em torno de pessoas ou de circunstâncias específicas. No Brasil contemporâneo, ser filiado ou simpatizante de um partido político é dito como se fosse uma ofensa, especialmente quando se fala dos dois partidos que disputam o segundo turno. E uma eleição para o cargo máximo da república não é como uma eleição para o Legislativo, em que o eleitor pode decidir-se apenas pela simpatia ou por se sentir representado pelo indivíduo.

Uma eleição para Presidente deve representar também um projeto, um conjunto de ideias. E isso, em uma república democrática e federativa, é legitimado pelos partidos políticos. Obviamente que a percepção sobre o indivíduo também conta, mas não deveria se tratar apenas de Dilma versus Aécio, a sucessora de Lula contra o resgate de Fernando Henrique Cardoso. Obviamente, muito desse enfraquecimento da representação partidária é de responsabilidade dos próprios partidos; muitos, hoje, especialmente os pequenos, mal se distinguem um do outro. Os partidos, entretanto, não podem fazer justamente o que estão flertando em fazer: aceitar esse esvaziamento.

Existe uma diferença entre trabalhar para diminuir a rejeição ao partido e negar a própria identidade partidária; ainda, suplantá-la com o indivíduo. Uma breve busca em santinhos e demais materiais de campanha dos últimos anos mostra que essa tendência não é necessariamente nova, mas nunca teve a atual intensidade. Se o cidadão brasileiro não se sente representado pela estrutura partidária, então, cabe aos partidos mudarem isso. Reconquistar a confiança do cidadão, definir suas bandeiras, chamá-lo para o debate. Uma logomarca bonita pode dar resultado em quinze dias, o resgate dos partidos dará resultado pelos próximos anos.

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