O dedo-duro aponta para o falecido

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Caros leitores, como muitos de vocês devem saber, durante investigações pela Polícia Federal sobre a Petrobras, um ex-diretor da empresa, Paulo Roberto Costa, optou pela delação premiada. O mecanismo permite que um acusado ou suspeito, ao colaborar com a justiça e com as investigações, tenha sua pena diminuída ou até mesmo anulada. É uma maneira comum de alguém “limpar sua própria barra”. Os depoimentos do delator são sigilosos e o acordo já foi encaminhado para o Supremo Tribunal Federal para sua homologação ser analisada. Não é de se espantar, entretanto, que alguns nomes já teriam “vazado”, inclusive o do falecido ex-governador de Pernambuco e ex-candidato a Presidente Eduardo Campos.

Paulo Roberto da Costa

Paulo Roberto da Costa, ex-diretor da Petrobras que teria optado pela delação premiada.

O veículo que publicou o suposto vazamento é a revista Veja. Na matéria, a revista cita, em dois breves trechos, o acesso aos depoimentos. Na página 61, grafa-se: “Nos últimos dias, VEJA obteve detalhes de uma parte significativa das declarações prestadas pelo ex-diretor”. Depois, na página 65, a revista explica que “Os depoimentos são registrados em vídeo – na metade da semana passada, já havia pelo menos 42 horas de gravação. Ao final de cada sessão, todo o material é lacrado. Os arquivos são criptografados para evitar vazamentos”. Isso é importante de ser levado em consideração, pois, até o momento, o conteúdo dos depoimentos não é público, ainda não foram feitas acusações formais. A reportagem, inclusive, não é acompanhada das habituais transcrições ou imagens de documentos.

Costa teria apontado os nomes de três governadores, seis senadores, um ministro e, ao menos, vinte e cinco deputados federais. Obviamente, de acordo com a divulgação das informações, outros nomes e aspectos serão tratados aqui; além disso, neste texto, trataremos do que pode acontecer, não das (poucas) informações já disponíveis. Um dos nomes menos tratados e, ao mesmo tempo, mais importantes, é o de Eduardo Campos. Campos morreu em um acidente aéreo no mês passado, que foi abordado em outros textos aqui do Xadrez Verbal. O nome é dos mais importantes, pois, caso Campos estivesse vivo, teríamos um nome de presidenciável envolvido diretamente em uma possível ilegalidade. Ao mesmo tempo, o nome é dos menos tratados justamente porque Campos está morto.

Afinal, é passível de polêmica acusar alguém que não pode se defender, especialmente na cultura brasileira. Como comentado antes, alguém que morre em situações trágicas é, quase que imediatamente, canonizado na opinião pública. Ao mesmo tempo, existe um aspecto ético concreto em você acusar, apontar o dedo, para alguém que não poderá responder. Isso abre a porta para reações emotivas e dramáticas. O candidato à vice-presidente, junto de Marina, herdeira política momentânea de Campos, Beto Albuquerque, disse: “Repudio as ilações e a vilania que estão tentando fazer contra Eduardo Campos depois que ele morreu (…) Quando ele estava vivo, não tinham coragem de enfrentá-lo. Agora, começam a levantar acusações, como se ele pudesse se defender.”. Por um lado, existe o aspecto ético citado, por outro, alguém se torna inatingível por ter morrido?

Pode-se até afirmar que esse tipo de defesa é covarde, apenas busca-se uma saída fácil, ou que é vitimização. Não se responde a eventual denúncia, retira-se o direito de acusação do outro, ou afirma-se que o outro que é vil, usando o nome de um falecido para acusar. Dilema ético, comoção por uma morte trágica, dramatização da acusação, eventual sustentação de uma denúncia. Todos esses elementos juntos formam um caldeirão complicado. E que fica ainda mais quente quando, lembro, trata-se de um presidenciável. Seria impossível Marina Silva, herdeira de sua candidatura, não ser interpelada ou, no mínimo, sofrer alguma consequência de uma eventual denúncia. Especialmente dada sua retórica de “nova política”, que ficaria contraditória. Como seria uma “nova política” sendo da chapa de um candidato eventualmente beneficiado por desvios de recursos de obras da Petrobrás em seu estado?

Marina Silva classificou o apontamento de Eduardo Campos como mera “ilação”. Ao mesmo tempo, afirma que aguarda a investigação dos “desmandos” na Petrobrás. Nova contradição da candidata, já que ainda não existem acusações formais, com apresentação de provas, contra ninguém. Se for “ilação” no caso de Campos, é “ilação” sobre todos os nomes. Se for “desmando” para os outros, existem “desmandos” sobre Campos também. No caso de Marina, o quebra-cabeça é ainda mais complexo, pois envolve também o jato acidentado, quando da morte de Campos.

A aeronave era usada pela campanha do PSB, inclusive pela então candidata à vice. O avião possivelmente foi adquirido por os recursos desviados pelo esquema denunciado por Costa. O jato foi adquirido pela empresa Câmara e Vasconcelos, comprado aos antigos donos, a AF Andrade. A empresa, por sua vez, recebia recursos da MO Consultoria, empresa criada por Alberto Youssef para receber dinheiro das empreiteiras envolvidas no caso relatado pela delação-premiada. A fonte dessa informação é o jornal Folha de S. Paulo.

Retorna-se então ao ponto inicial. Mesmo que uma investigação completa resulte em uma denúncia sólida, como acusar alguém que não pode se defender? Isso abre ainda mais espaço para especulações e troca de incriminações. E, no caso específico de Campos, existe outro fator importante. Além de único presidenciável envolvido diretamente nas informações vazadas, além do debate e da reação de Marina, Campos tinha comprovadamente uma relação com Costa, o delator. O nível dessa relação, e a natureza dos negócios entre os dois? Não sabemos, mas Paulo Roberto Costa chegou ao ponto de arrolar Eduardo Campos como sua testemunha, de defesa, nas investigações. A informação é da coluna Radar, também de Veja.

A divulgação do “vazamento”, faltando um mês para as eleições, é complicada e pode afetar diversas candidaturas. No caso dos presidenciáveis, Campos é o único nome diretamente implicado, até agora. Costa fez parte da primeira metade do governo Dilma, mas o material até agora na mídia não implica a Presidenta diretamente. O que pode vir à tona, ninguém sabe agora. No caso de Marina e de Campos, o espetáculo emocional habitual é quase certo. Os acusadores serão censurados, os acusados serão censurados. Uns posarão de paladinos, outros, de vítimas. Quando se faz política com os mortos, usando a imagem de Campos em programas eleitorais e material de campanha, abre-se o precedente. E, entre acusadores e acusados, ninguém é santo. Nem os mortos.

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