Retrato explícito da crise do PSDB: Como apequenar uma História

O Partido da Social Democracia Brasileira, PSDB, foi fundado em 25 de Junho de 1988. Entre seus fundadores estavam nomes como Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, intelectual, Senador e futuro Presidente da República, André Franco Montoro, ex-Governador do estado de São Paulo e Afonso Arinos de Melo Franco, jurista e historiador brasileiro. A proposta original do partido era, como explícito na nomenclatura, a social democracia, a “terceira via” europeia, por vezes citada nesse espaço. Uma proposta política de centro-esquerda, que buscava uma confluência democrática após o período da ditadura militar. Vinte e seis anos depois, o PSDB vive uma grande crise de identidade e de propostas.

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Aparentemente, apenas o próprio partido não percebe isso. Ainda não é possível dizer que ele está se apequenando. Conta com doze senadores, empatado com o Partido dos Trabalhadores como a segunda bancada partidária (a maior é a do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, com vinte). Sua bancada de deputados federais é a terceira, com 54 nomes (PT lidera, com 88, seguido pelo PMDB, com 79). A representação do PSDB no legislativo federal, em ambas as câmaras, entretanto, diminuiu nas últimas eleições. É o segundo partido com mais governadores estaduais (o líder é o PMDB), com cinco; Alagoas, Goiás, Pará, Paraná e São Paulo.

Também diminuiu nas legislaturas estaduais. O PSBD elegeu 123 deputados estaduais em 2010, contra 148 nas eleições de 2006. Quando se analisa a lista de representantes municipais crise de identidade do partido fica ainda mais nítida. Das cem cidades brasileiras mais populosas, o PSDB está em treze prefeituras, seguido pelo Partido Democrático Trabalhista, com onze, e sucedido pelo PMDB, com dezessete. O líder é o PT, com mais que o dobro de prefeituras do PSDB: vinte e sete. Se tomarmos como universo a integridade dos municípios, o PSDB possui mais prefeituras que o PT, 702 contra 635, mas ainda é um recuo frente às 791 prefeituras que o partido possuía na eleição anterior. E ambos estão muito distantes do PMDB, com 1024. E por qual motivo essa representatividade menor nos municípios deixa a crise do PSDB mais nítida?

O partido não conta mais, como já contou, com o contato direto com o eleitor, com a representatividade de comunidades, de centros urbanos com características e problemas específicos. O município está na base da República federativa, como já disse, em ironia do destino, Franco Montoro: “As pessoas não moram nem no estado nem na União; elas residem no município.”. O PSDB consegue manter uma boa representatividade em alguns estados e legislaturas federais justamente pelas características heterogêneas, quase amorfas, desses eleitorados. Exemplo cristalino disso foi visto na última pesquisa Datafolha, em que Alckmin teria 55% das intenções de voto para sua reeleição; quando os pesquisados foram perguntados a responder de forma espontânea a melhor área do governo, entretanto, 22% dos entrevistados disseram “nenhum” e 24% não souberam responder.

O eleitor não consegue enumerar o aspecto positivo, assim como não são possíveis de serem identificadas, claramente, as propostas do PSDB, especialmente para representação de comunidades. Não existe uma identificação psdebista ou sequer alguém que consolide a liderança do partido. O partido não conseguiu, por exemplo, capitalizar a herança política da presidência, em dois mandatos, de Fernando Henrique Cardoso. Nas quatro eleições presidenciais seguintes, o PSDB lançou três candidatos diferentes, e alternados. José Serra, em 2002, Geraldo Alckmin, em 2006, novamente José Serra, em 2010, e agora Aécio Neves. Nesse tempo todo, não faltaram histórias e relatos de fragmentação interna ao partido. Mesmo FHC foi, várias vezes, colocado em um fogo-cruzado, desperdiçando um eventual trunfo de liderança.

Finalmente, hoje, dia Primeiro de Setembro de 2014, o coordenador da campanha presidencial de Aécio, o senador Agripino Maia, do Democratas, deu uma resposta ao crescimento da candidata Marina Silva; nas últimas pesquisas, Aécio aparece apenas com 15% dos votos, menos da metade dos votos obtidos por José Serra no primeiro turno de 2010. E a resposta foi: “O sentimento que nos move (PSDB, DEM e Solidariedade) é garantir a ida de Aécio para o segundo turno. Se não for possível, avalizar a transição para o segundo turno. Ou seja, com uma aliança com Marina Silva, por exemplo. É tudo contra um mal maior que é o PT”.

Ou seja, a candidatura de Aécio virou algo menor e explicitou a falta de identidade do PSDB. Tal qual a pessoa que não acompanha futebol mas afirma que odeia um time, e apenas torce contra esse time (o popular “anti”, muito usado em relação aos times Flamengo e Corinthians), a candidatura do PSDB, nessas palavras, deixa de ser propositiva. Abandona qualquer diálogo eleitoral e uma intenção de representar um ou mais segmentos da sociedade; mesmo o pragmatismo eleitoral ficou em segundo plano, pelos termos maniqueístas utilizados. Reduz-se, em suas próprias palavras, como um mero espelho da candidatura do PT. A proposta eleitoral do coordenador da campanha de Aécio não é um projeto de governo, é apenas evitar a vitória do “rival odiado”. Se soubessem disso no dia 25 de Junho de 1988, talvez alguns daqueles presentes não assinassem aquela fundação.

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