Debate Presidencial 2014 – Eduardo Jorge, Lennon, Gandhi e a construção do mito

Caros leitores, a semana foi um pouco parada nesse espaço, infelizmente. Peço desculpas, os motivos para o sumiço existiram. Além, prometo melhorias para a semana que vem, o Xadrez Verbal irá dar mais um passo, contando com o apoio de amigos colaboradores. Ao texto de hoje. Na noite de Terça-feira, dia 26 de Agosto, a rede Bandeirantes de televisão transmitiu o primeiro debate aberto entre os candidatos ao cargo da Presidência da República nas próximas eleições. O debate durou quase três horas e contou com a presença de sete candidatos. Pretendo selecionar algumas falas e frases e discuti-las por aqui. Caso o leitor queira assistir o debate, este link contém o programa na íntegra.

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Em seu tempo para um pronunciamento final, o candidato Eduardo Jorge, do Partido Verde, falou do conceito de paz e amor, em contraponto a uma declaração da candidata Luciana Genro. Eduardo Jorge foi destaque no debate por uma série de razões, especialmente sua espontaneidade e verve no discurso. Dispensou um tempo de resposta com uma frase, encerrada com um simples “cabei”, para risos dos presentes. Na hora da tréplica, entretanto, disse “esse tempo eu quero sim”. Trocou gracejos, mesmo com os microfones desligados, com o candidato Aécio Neves. O trecho que se pretende discutir aqui é este:

Resumidamente, Eduardo Jorge afirma acreditar na paz e no amor, conceito transmitido nas ideias de Leon Tolstoy, escritor russo, John Lennon, músico e poeta inglês, e Mahatma Gandhi, líder político indiano. Tolstoy, por ignorância desse autor, será deixado de lado nessa discussão, infelizmente. Lennon e Gandhi são duas figuras que praticamente dispensam apresentações. Lennon, pelo seu ativismo contra a Guerra do Vietnã, seu envolvimento com a contracultura hippie e sua obra, tanto solo como na banda The Beatles, transmitia a mensagem de coexistência, tolerância, paz e fraternidade.

Gandhi tornou-se um símbolo da resistência não violenta contra um opressor. Liderou diversos movimentos nativistas na Índia contra o domínio britânico; tal domínio foi marcado por confrontos violentos, como o Motim de 1857, além de milhões de mortos em deslocamentos forçados, por fome ou repressão. Alguns defendem que o que o Império Britânico praticava uma política de genocídio na Índia. Todo esse histórico faz com que seja ainda mais surpreendentemente um movimento de desobediência civil sem o uso da violência; por exemplo, a prática de greves de fome como forma de protesto e a recusa em trabalhar em prol do Império.

Ambos tiveram mortes em circunstâncias chocantes. Lennon foi assassinado, com apenas quarenta anos de idade, a tiros por um admirador obcecado. Gandhi também foi baleado, por um nacionalista hindu indignado com a tentativa de conciliação com a parcela islâmica da população indiana. Isso aconteceu em 1948, durante o processo de independência indiana, que seria justamente a principal obra do ativismo de Gandhi, consolidada no início de 1950. O legado de suas obras e tais circunstâncias que comoveram a opinião pública tornaram Lennon e Gandhi “homens de mármore”; imortalizados como mitos, que são construídos todo dia, com a repetição cultural de tudo que for admirável sobre eles. Tornam-se completamente virtuosos.

Tal acontecimento não é estranho ao processo histórico. Homens são transformados em mitos em diversas circunstâncias e categorias. Líderes políticos, generais, filósofos, cientistas, artistas. O curioso é que os dois nomes citados, Lennon e Gandhi, são figuras recentes na História, com informações abundantes. E, muitas vezes, contradizendo a idealização criada. A liderança de Gandhi na Índia tinha como um de seus principais pilares a emancipação feminina, tanto na vida política quanto na vida social; a cultura hindu pode contar com aspectos como o casamento de meninas e o banimento de viúvas, por exemplo. Entretanto, dependendo do olhar do interlocutor, Gandhi poderia ser chamado de pedófilo e de abusador sexual de crianças.

Gandhi, em sua vida adulta, era celibatário. Como parte de “experimentos” que testariam sua capacidade de resistir ao sexo, ele era constantemente acompanhado por jovens nuas. Até sua velhice. As jovens nuas lhe davam banho, dormiam na mesma cama com ele (também nu), muitas vezes coletivamente, incluindo sua sobrinha-neta de cerca de dezoito anos, Manubehn. Além disso, Gandhi foi alvo de polêmicas e críticas, em sua vida, por sua admiração por Adolf Hitler. Dado que o líder da Alemanha era o principal rival de seu dominador britânico, seria compreensível uma aproximação política entre as duas figuras; entretanto, mesmo após a guerra, Gandhi manteve algumas posições controversas sobre o líder do regime nazista.

O caso de John Lennon é mais cru, não depende de um eventual relativismo cultural ou de interpretações históricas. Embora os Beatles tenham usado a palavra love (“amor”) 613 vezes em suas composições, Lennon era um agressor físico e abusador psicológico de mulheres. Em suas próprias palavras. O casamento de Lennon com Yoko Ono entrou para a história da música, e para a cultura popular, como o ápice de como um relacionamento amoroso pode influenciar e minar amizades ou envolvimentos profissionais. Quando um amigo se afasta de outro por causa de uma namorada, por exemplo, ela “é uma Yoko Ono”. Yoko teria se intrometido demais na vida dos Beatles, presente em todos os ensaios, acompanhando Lennon até mesmo em reuniões fechadas, contribuindo para o fim do grupo.

O que não se comenta, entretanto, é que Yoko Ono era a vítima. Lennon a obrigava a acompanhá-lo sempre. Inclusive ao banheiro. Para evitar que ela fosse infiel a ele ou o abandonasse. Lennon era opressor e dominador, controlando todo e qualquer aspecto da vida de Yoko Ono. A tortura psicológica contra um eventual abandono era constante no relacionamento dos dois, assim como foi uma constante no relacionamento de Lennon com um de seus filhos, Julian Lennon. Julian era filho de John com sua primeira esposa, Cynthia Powell, vítima de repetidas agressões de John Lennon.

Em ambos os casos, as vítimas são mulheres. Alguém pode debater. O relativismo cultural justificaria a postura diferente de Gandhi em relação ao sexo. A vida pessoal de Lennon seria, além de separada de sua obra, demonstração de seu crescimento e amadurecimento. Sua postura, como marido e como pai, mudou posteriormente, especialmente após o nascimento de seu segundo filho, Sean Lennon. A questão é o estabelecimento e construção de mitos virtuosos, citados de forma irrefutável como exemplos do pensamento de “paz e amor”. Poucos estranham ou acham deslocado que ambos sejam colocados nesse contexto em um debate presidencial, e pouco é conhecido do “lado negro” dessas figuras históricas. A preservação da memória, entretanto, não deve ser confundida com a construção de homens de mármore.

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Você pode ler um pouco mais, em inglês, sobre os aspectos sexuais da vida de Gandhi aqui.

Sobre Lennon e Yoko Ono, também em inglês, aqui neste link e nesta longa entrevista para a revista Playboy.

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