Porcos e Petralhas

A imigração italiana para o Brasil foi iniciada na década de 70 do século XIX. O período de ápice da imigração foi entre as duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX; e foi no início do século XX que os imigrantes vindos da Itália começaram a se estabelecer não apenas em comunidades rurais e pequenas cidades, mas também em centros maiores. Imigrantes pobres costumam sempre serem alvos de atos xenofóbicos ou, ao menos, de desconfiança dos já residentes daquele local, e isso não foi diferente em São Paulo.

Um dos termos mais conhecidos é o “carcamano”, que possui diversas explicações sobre a palavra. Em 1914, a comunidade imigrante italiana fundou um clube de futebol na cidade, o Palestra Itália. O maior rival do clube, na época e até hoje, seria o Sport Club Corinthians Paulista; ambos os clubes compartilham diversos aspectos de sua origem, como o fato de serem clubes proletários e parte considerável de seus primeiros integrantes serem da região do bairro do Bom Retiro. Isso fez com que alguns dos termos usados para referência aos italianos ganhassem tamanho, presentes nos estádios e nos jornais. E também diversificou o palavreado, motivado pela rivalidade.

Uma das ofensas comuns aos imigrantes italianos, nesse período, seria chamar o indivíduo de “porco”. Existem diversas explicações, cada uma com uma parcela de verdade e uma parcela de folclore urbano. Uma delas é mais óbvia, que os italianos pobres não teriam as melhores das higienes. Outra diz que o termo era utilizado, pois porco, no idioma italiano, possui uma conotação mais forte. Relacionado a isso, os italianos, nas arquibancadas dos estádios, usariam expressões como “porca Madonna”, uma espécie de “p. que pariu” italiano.

Finalmente, os fascistas eram chamados de porcos, e a entrada brasileira na Segunda Guerra Mundial, contra o regime fascista italiano, teria grande impacto na relação social com os italianos. E também teve impacto na rivalidade esportiva, já que o Palestra Itália foi obrigado a retirar o “Itália” de seu nome, tornando-se a Sociedade Esportiva Palmeiras. Ou seja, durante décadas, chamar um italiano, seus descendentes e, consequentemente, os torcedores palmeirenses de porcos era extremamente ofensivo.

Exatamente por isso, era um dos termos mais comuns da rivalidade. Exemplo maior disso talvez seja o do ano de 1969. Dois jogadores do Corinthians morreram em um acidente automobilístico e o clube queria substituir as inscrições dos atletas mortos no Campeonato Paulista. O Palmeiras foi o único clube que fez objeção, assim, a mudança de inscrições não foi possível. O presidente corintiano chamou o presidente do Palmeiras de porco e, na partida seguinte entre os dois times, a torcida do Corinthians soltou um porco enlameado no gramado do Morumbi antes do início do jogo, aos gritos de “porco!” e contra a “sujeira” do Palmeiras.

No dia 27 de agosto de 1986, um dia depois de completar 72 anos, no jogo Palmeiras X Corinthians, válido pelo Campeonato Paulista, o Palmeiras goleou o rival por 5×1. Com uma articulação do dirigente João Roberto Gobbato, toda a torcida palmeirense gritava nas arquibancadas: “E dá-lhe porco”, apropriando-se da ofensa. Em 10 de Novembro daquele ano, um dos principais jogadores do Palmeiras na época, Jorginho, posou para a capa da revista Placar, a principal revista esportiva no período, com um pequeno porco no colo e a manchete “O Palmeiras quebra um tabu: Dá-lhe porco”. O animal, hoje, é visto como uma mascote do clube, perdeu sua potência ofensiva.

Em 2008, o jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo lançou um livro chamado O País dos Petralhas, com diversas críticas ao Partido dos Trabalhadores, além de outros temas e da esquerda em geral. O título é um neologismo de autoria do jornalista, que mistura os termos “petista”, integrante do PT, e “metralha”, referência aos Irmãos Metralha, os criminosos presidiários que servem como vilões em várias histórias da Disney.

metralha

Desde então, o termo está na ponta da língua (e do teclado) de diversas pessoas, que em qualquer debate político vociferam “petralha”, com a intenção de ofender ou, ao menos, rotular um eventual interlocutor. O autor do neologismo inclusive se orgulha de um dicionário ter colocado o termo em suas páginas, o Grande Dicionário Sacconi. Inicialmente, os militantes do PT tentaram “dar o troco” com o termo tucanalha, que soma “tucanos”, símbolo do PSDB, principal rival do PT, com “canalhas”, que dispensa explicações.

Em 2012, Reinaldo Azevedo publicou a continuação do livro, O País dos Petralhas II. O neologismo, agora, toma forma maior ainda. Recentemente, entretanto, o termo foi apropriado justamente por pessoas de esquerda em páginas de humor político. Foi de rótulo ofensivo para piada, termo jocoso. Independente de o indivíduo ser membro, ou se enxergar, no PT (e, diga-se, isso é muito mais comum do que se imagina). Pode-se facilmente encontrar montagens na internet e nas redes sociais fazendo brincadeiras e trocadilhos com o termo “petralha”, do ponto de vista de alguém que poderia ser rotulado como um nas discussões, ou até mesmo já foi.

Ao se apropriar do termo, quando o suposto ofendido toma a “ofensa” pra si, a palavra perde seu poder de atingir. Quem concede esse poder é justamente o alvo da palavra. Assim como a torcida palmeirense na década de 1980, hoje, ao fazer brincadeiras com “petralha” e suas derivações, petralhar, petralhismo, retira-se a capacidade de rótulo da expressão. O que é muito mais eficiente, e inteligente, que apenas devolver com termos similares. Acima de tudo isso, demonstra que tratar a política como arquibancada, de forma passional e com gritos de rivalidade, não colabora com o debate, apenas com a caricatura.

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6 Comentários

  • Entendo que a estratégia de “assumir o apelido”, no caso do porco faz todo o sentido, pois o porco, antes da conotação pejorativa que lhe pode ser imputada, é um animal, simplesmente, e como muitos clubes esportivos usam animais das mais diversas estirpes como mascotes, como o galo, a raposa, o coelho, o periquito, o urubu, o burro, nada mais natural que assumir um porco, dizendo “eu sou porco mesmo, ser porco é bacana, sou porco e tenho orgulho disso”. Já no caso do uso de personagens caracterizados como uma quadrilha de ladrões, não me parece uma estratégia muito apropriada assumir esse apelido, ainda mais para um partido político ou seus simpatizantes. Seria o mesmo que assumir e dizer “”eu sou ladrão mesmo, roubar é bacana, sou ladrão e tenho orgulho disso”. Para pessoas públicas ficaria muito estranho, seria mais ou menos como um grupo de políticos ser condenado pela mais alta corte do país, sem direitos a recursos, por corrupção e ladroagem, e ainda posarem de heróis diante das câmeras, fazer gestos de resistência e de orgulho enquanto segue para a cadeia (se possível com uma capa de super herói) e ser aplaudido por seus seguidores. Epa… espera aí… mas isso não aconteceu mesmo? E no caso o gesto de orgulho por ser um “super ladrão” acabou por criar um novo significado para um gesto (o punho cerrado, erguido sobre a cabeça), que era usado como sinal de luta pela igualdade e pela verdade, hoje no Brasil significa sinal de apoio aos ladrões. Isso foi visto quando o vice-presidente da câmara dos Deputados fez esse gesto para ridicularizar o Presidente do STJ, na sua visita àquela casa de leis (num episódio de desrespeito similar aos xingamentos da presidente no estádio da abertura da Copa, com o agravante de que partiu de uma autoridade legislativa e não de simples membros da elite branca anônima). Dias depois o mesmo Deputado foi afastado por envolvimento com corrupção ni Ministério da Saúde, comandado, na época, pelo atual candidato ao governo de São Paulo. Pensando bem, o processo de “assumir o apelido” de “Petralha” parece já estar em curso, as imagens do partido apelidado mostram que já faz parte de seu marketing as ações que demonstram orgulho em roubar, pois todas as suas reclamações estão no ato de ser condenado e preso (isso, sim é feio), mas o roubo é demonstrado como sinal de orgulho.

  • Não se trata de “estratégia”, apropriada ou não, muito menos algo partidário ou referente ao PT. Trata-se de resposta, jocosa, das pessoas que são “acusadas” disso por aí.

    Exemplifico com uma mensagem dos moderadores da página TV Relaxa

    “Entretanto, a pergunta de vocês pode ser: “Então por que vocês se chamam petralha?”

    O “petralha” não foi criado por nós. Desde quando aquele “jornalista”, Reinaldo Azevedo escreveu o livro “O País Dos Petralhas”, uma enxurrada de “PETRALHAS!” “FORA PETRALHAS!” Começou a aparecer na nossa vida. Qualquer um que defendia algo mais voltado ao social, à Esquerda, era chamado de PETRALHA!!!1 (sim, com caps lock e erro na hora de digitar o ponto de exclamação).

    Portanto, diante dessa dicotomia e simplismo político, nós resolvemos falar: “se ter posições à Esquerda é ser petralha, então sim: nós somos petralhas.”

    E é essa bandeira que levantamos: a da Esquerda. Temos anarquistas, comunistas, sociais-democratas aqui na administração. Discordamos de muito, mas concordamos com muito mais coisas. ”

    Obrigado pelo comentário.

  • Pingback: Resumo da Semana – 17/08 a 23/08 | Xadrez Verbal

  • Pois é, mas no exemplo dado não houve a “apropriação” do termo, houve sim uma distorção do significado da palavra. “Petralha” é termo usado para o “ladrão”, é a proximidade dos personagens dos quadrinhos “Irmãos Metralha”, e não, como afirma o texto apontado, para indicar “Qualquer um que defenda algo mais voltado ao social, à Esquerda”. Seria o mesmo que dizer “qualquer pessoa que tomasse banho, andasse perfumado, comesse com garfo e faca e bebesse água em copos de cristal era chamado de “PORCO”, portanto, diante dessa dicotomia e simplismo esportivo, nós resolvemos falar: “se ter hábitos de higiene e educação à mesa é ser porco, então sim: nós somos porcos.”

    Essa estratégia (ou simples resposta jocosa) é uma simples maneira de tentar mudar o sentido do “apelido”, coisa simplesmente improdutiva. Abração!

    • ““Petralha” é termo usado para o “ladrão”, é a proximidade dos personagens dos quadrinhos “Irmãos Metralha””

      Palavras não são estanques, o texto e o comentário se referem ao uso da palavra, não sua origem e é exatamente isso que é se apropriar de um termo. 🙂

  • Exato. Segundo o texto o novo uso da palavra “porco” passou de ofensa a orgulho, os palmeirenses se apropriaram do termo SEM mudar seu significado, porco é porco.
    O uso da palavra “Petralha” não segue a mesma linha de pensamento, se depende da mudança de significado para que seja feita a apropriação.

    Significados das palavras não são estanques, mas não se pode inventar significados ao bel prazer de quem use as palavras. Se eu começar a dizer que “feio” significa “bonito” essa minha afirmação não tem qualquer valor se não for uma convenção sedimentada na sociedade, é o princípio da comunicação, a compreensão só exista se o que eu digo é entendido (com o mesmo sentido que eu dei às palavras) por quem escuta.

    Como eu disse, o significado da palavra “petralha” no exemplo dado não condiz com o significado desse vocábulo para quem o escuta.

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