Por que se deve cobrar de Israel

Caros leitores, semana passada foi publicado um texto criticando a postura do atual governo israelense aqui no Xadrez Verbal. Obviamente, isso não foi exclusividade desse espaço, Israel foi criticado em diversos meios de comunicação e por diversas pessoas. Não demorou a muita gente, inclusive colunistas de revistas de grande circulação, usarem a fraca falácia de simplesmente apontar dedos para os outros interlocutores. Independente dos argumentos usados, quem criticava Israel estava motivado por “ódio”, antissionismo ou até mesmo antissemitismo. Quais os motivos então para cobrar e criticar Israel?

Primeiro, deve-se deixar claro que, ao menos nesse blog, reconhece-se o direito de Israel existir como um Estado soberano, nos termos das próprias Leis de Israel: um Estado judeu e democrático. Sobre a fundamentação de Israel, existem diversos problemas, que fazem parte da gênese das crises atuais, mas são por demais complexos. Mesmo que a justificativa religiosa e excepcionalista do Estado de Israel seja mérito de discussão, trata-se de princípio básico da autodeterminação dos povos; as raízes culturais do povo judeu são na região, o que contribui para a legitimidade do Estado.

Ou seja, não se trata de dizer que o Estado de Israel não é legítimo, ou que deveria existir em outro lugar, como foi cogitado diversas vezes no século XX. A inerente confusão entre direito e política com a religiosidade em Israel, repito, não é objetivo desse texto. A questão aqui é que se trata de um conflito entre israelenses e palestinos. E a solução para o conflito está nas mãos de Israel. Um processo de paz requer cooperação de ambos os lados, mas não é um evento natural, que simplesmente acontece. No ditado popular, “alguém tem que ceder”. E deve ser Israel.

Deve ser Israel, pois a Palestina compreende uma área de pouco mais de seis mil quilômetros quadrados, cerca de quatro milhões e meio de pessoas e uma economia estimada de doze bilhões de dólares, que não possui forças armadas regulares. Em outras palavras, trata-se de um dos menores, menos populosos e mais pobres países do mundo. Em contraste, Israel é a maior economia da região do Levante e uma das maiores economias do Oriente Médio, mesmo com seu pequeno tamanho. Conta com uma população com quase o dobro do tamanho da população palestina, reconhecimento internacional e um dos quinze maiores orçamentos militares do planeta. Israel possui os meios para sustentar a estabilização.

Na perspectiva do Nobel da Paz timorense José Ramos-Horta, reportada e repetida aqui, cabe ao Estado de Israel um líder de visão e um gesto magnânimo para garantir a paz na região; justamente pela atual amplitude das capacidades israelenses. Em contrapartida, Israel sofre um grande problema de legitimidade. Eticamente, Israel é criticado por suprimir a Palestina e executar uma política de expulsão, visto como um abusador de direitos humanos, que leva a boicotes e protestos. Politicamente, Israel enfrenta a contradição de se dizer favorável à paz e combater a violência na região, mas não ser signatário de nenhuma convenção internacional sobre armamento e estabilidade.

A Convenção de Armas Químicas, objeto de crise recente na Síria. A questão nuclear, gênese das crises com o Irã, representada pelo Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e o Tratado para a Proibição Completa dos Testes Nucleares. A Convenção de Armas Biológicas, assunto que legitimou a ilegal invasão do Iraque em 2003. Nenhum desses tratados conta com a participação israelense, que adota uma política dúbia, embora os relatórios de que Israel possui arsenais de todos os tipos citados sejam conhecidos. Finalmente, em um campo moral, muitas vezes comenta-se que é trágico que o povo vítima de um dos maiores genocídios da história humana, hoje, estaria repetindo a História, mas no papel de carrasco. Essa é uma discussão densa, mas o fato é que Israel sofre com problemas de legitimidade.

E por isso que deve se cobrar Israel. O Estado de Israel e seu atual governo estão no centro dos eventos. São parte de um conflito que se arrasta por décadas e já vitimou milhares. E está nas mãos de Israel a capacidade de realizar a paz e estabilizar Eretz Israel, o nome bíblico para a região, presente na Declaração de Independência de 1948. Um povo que construiu um país moderno no deserto e garantiu seu lar, como todos os povos merecem, pode fazer ainda mais. E não seria a troco de nada. Garantir um Estado da Palestina livre, soberano e em paz seria garantir um Estado de Israel em paz e legítimo perante a comunidade internacional.

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10 comentários

  • Parabéns pelo texto.

    Tenho algumas perguntas :
    Concordo com algumas coisas, mas e o “Governo ” HAMAS ?
    Não valeria apena destacar quem são essas pessoas, qual é a causa delas aqui no blog?
    E o crime que os palestinos sofrem por ter essas pessoas ou terroristas , no poder , não seria essa uma das causas também dos ataques de israel?
    A mídia aborda o sensacionalismo, porem o HAMAS envia quase todos os dias misseis contra Israel, que na maioria das vezes são interceptados, israel responde com fogo porem certeiro, a argumentação de israel é que se não contra-atacarmos , eles nunca irão deixar de enviar os misseis.

    Esse entre alguns fatores justificam o não cessar fogo de israel ?

    um abs

    • Caro Danilo

      Primeiro, sim, valeria, mas o propósito do texto do momento, explicitado na introdução, não era esse; além disso, uma breve busca no blog mostra que, por exemplo, o Hamas já foi definido aqui como “braços radicais engajados na luta armada”.

      Além disso, quem está no poder na Palestina é Abbas, do Fatah, quem o atual e nefasto governo israelense negou diálogo, mesmo cedendo publicamente em diversos aspectos.

      O Hamas controla apenas a Faixa de Gaza. E pq isso ocorre? Pq os radicais não controlam a Cisjordânia, onde existem grandes cidades, turismo e poucos conflitos? Fica nítida a diferença entre as duas regiões quando se observa a renda média de cada uma. 876 dólares per capita em Gaza e quase dois mil dólares na Cisjordânia, mais que o dobro.

      Pois Gaza que é estrangulada por terra e bloqueada pelo mar por Israel, ocupada, bombardeada periodicamente, tudo o que alimenta o radicalismo. “Terroristas” não costumam surgir em locais estáveis e prospéros. Além disso, deve-se lembrar a frase seminal atribuida a Malcom X: não se deve confundir a reação do oprimido com a violencia do opressor

      Sobre o sensacionalismo, sim, acredito que ele abunda, mas não na mesma perspectiva que você, inclusive citando frequentemente os foguetes do Hamas. Que, repito, são lançados apenas de Gaza. Na Cisjordânia poderiam atingir as principais cidades israelenses com muito mais eficácia, mas não são lançados de lá. Pq?

      Sobre a argumentação israelense de “contra-atacar”, bem, dessa vez ela não tem sustentação alguma, já que o contra-ataque foi o do Hamas; Israel foi responsável pelo ataque. Façamos uma breve recapitulação dos eventos.

      1- Trrês jovens israelenses são encontrados mortos. O governo israelense não hesita em afirmar que o Hamas foi o autor e incentivar vingança.

      2- Líderes israelenses, incluindo o segundo maior partido do país, o Trabalhista, de uns tais Ben Gurion e Rabin, afirmaram que os assassinatos dos jovens ortodoxos eram de competência jurídica, não militar. Releia essa frase bem devagar. Não foi o Abbas, o Fatah, o Hamas, o fantasma do Arafat. Foram os líderes do único partido que já se comprometeu com um processo de paz na região e cujo líder foi assassinado por um judeu ortodoxo da direita radical.

      3- Apenas sob o pretexto de buscar os assassinos dos três jovens, seis palestinos foram mortos e 560 pessoas foram presas de forma arbitrária. Se três adolescentes são mortos no centro da cidade e a PM prende 560 pessoas, além de matar seis, suspeitas de forma arbitrária, acredito eu que protestariam contra os “abusos do Estado”. Ou, no mínimo, que os recursos do Estado estão sendo mal utilizados.

      4- Após a retaliação do Hamas, motivada pela operação descrita no item 3 desse post, quase quinhentas pessoas já morreram em ataques israelenses, incluindo famílias inteiras e cem crianças. Isso se chama assimetria. O “fogo porem certeiro” das forças israelenses é, no mínimo, cinismo, descolado da realidade.

      5- E, pra finalizar com chave de ouro, numa imensa coincidência, 1500 novos assentamentos ilegais são anunciados logo após a operação.

      Então, não, nem o fogo nem o “não cessar fogo” de Israel possuem justificativas, nem nos episódios recentes, nem na crise atual. O único líder israelense realmente comprometido com o processo de paz foi assassinado por um radical ortodoxo. Judeu. O atual governo de Netanyahu, do Likud, não tem absolutamente nenhum compromisso com a paz, a e responsabilidade está nas mãos desse governo.

      E é disso que Ramos-Horta falava, e que é retratado nos últimos textos. Apontar o dedo para o Hamas, ou afirmar que o Hamas não foi citado no texto é falar o óbvio, chover no molhado: o Hamas não possui os meios para a paz e não está preocupado com a paz. O Fatah não possui os meios para a paz. Quem possui, quem necessita um líder “de visão”, nas palavras de Ramos-Horta, que vá além de “se não contra-atacarmos , eles nunca irão deixar de enviar os misseis”, é Israel.

      Quem pode fazer algo de construtivo e opta pelo contrário é Israel.

  • Bom, acho a solução de dois Estados – tão defendida por todos, pelo menos em teoria – está morta e faz tempo. Um Estado palestino teria de existir na Cisjordânia e em Gaza. Por mais que a Faixa de Gaza não tenha mais assentamentos israelenses, é claro que ainda é controlada por Israel, que lhe impõe um bloqueio muito pesado – e com a ajuda do Egito. Assim, Tel Aviv teria de abandonar essa política, mas parece que não vai mesmo. Com relação à Cisjordânia, tem havido uma progressiva anexação por assentamentos israelenses, sobretudo das partes mais ricas em recursos naturais. E boa parte dos colonos é composta por fundamentalistas religiosos e por gente da extrema-direita. Ou seja, jamais vão aceitar que Israel devolva essa região aos palestinos. Por muito menos, assassinaram Yitzhak Rabin.
    Assim, Gaza sob bloqueio e áreas empobrecidas e geográfica e economicamente isoladas na Cisjordânia jamais resultarão em um Estado palestino viável.
    Ocorre que, a longo prazo, a impossibilidade de haver dois Estados pode ser fatal para os objetivos iniciais de Israel [um Estado judeu para os judeus, em que judeus sejam maioria populacional]. Com Israel dominando praticamente toda a área da Palestina histórica, muito provavelmente se passará a defender a solução de “Estado único” para dois povos – exatamente o que os líderes do movimento sionista, sobretudo Theodor Herzl, queriam evitar a qualquer custo. Provavelmente, se fosse criado um único Estado para toda a região, os judeus seriam minoria, o que jogaria no lixo todo o esforço histórico do movimento sionista. Penso que só se conseguiria evitar esse cenário com uma explosão demográfica israelense e com o genocídio do povo palestino.
    Enfim, todos esses motivos me fazem crer que não haverá paz (com justiça) para ambos os povos. A paz que houver será aquela dos vencedores, a paz resultante de um jogo de soma zero. Paz que, na verdade, nem merece ser assim chamada.

    • Caro Bruno, sua análise, realista e pragmática, é muito boa e factível, e tendo a concordar com ela.

      Porém, acredito que Israel possua poder (hard power, mesmo) suficiente, hoje, para implantar, se quiser, a solução de dois Estados. E isso seria benéfico a ambos. Especialmente a longo prazo, já que o revanchismo é a mola da região.

      O radicalismo religioso, claro, é uma pedra nesse caminho, já que o excepcionalismo de alguns setores israelenses impede esse diálogo, como você mesmo mencionou.

      O jeito é ter esperança, mas, repito, você está certíssimo.

      Muito obrigado pelo comentário.

  • OBRIGADO PELO ESCLARECIMENTO FILIPE =) VOU ACOMPANHAR O BLOG =) NAO HAVIA VISTO OS OUTROS POST’S DESCULPA PELA REPETICAO DE INFORMACOES =)

    PARABENS PELO BLOG!

  • Assim como a maioria dos israelenses eu concordo com a solução de dois estados. O que o texto acima não leva em consideração é que o próprio líder do hamas admitiu que utiliza a população como escudos humanos. Esse número elevado de mortos acontece em sua maioria por este motivo. Os três adolescentes foram sim mortos pelo hamas. Não é citado que o hamas é quem ataca a população civil, nem que o único desejo da ditadura instalada em gaza é a destruição total dos Estado de Israel. Também não vi o texto falando que Israel aceitou sim um cessar fogo, que foi proposto pelo Egito, quem declinou a proposta foi exatamente o hamas. Israel tem sim o direito de se defender,algumas áreas não podem ser entregues em um acordo de paz, pois seria um corredor aberto a ataques militares, como os que houveram no passado e foram efetuados por vários países. A guerra de hoje não é contra a palestina, e sim contra um grupo terrorista. Tendo em vista que 90% do território palestino está em paz.

  • Caro Daniel, obrigado pelo seu comentário. Ele é um exemplo perfeito da falta de visão hoje presente no governo israelense e da postura apontada na introdução, que esteriliza o debate

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  • A verdade é que os palestinos nunca aceitarão Israel. A solução de Dois Estados seria apenas temporária, não importando quem fosse o líder israelense, porque na cabeça dos palestinos, os judeus/israeli nunca cumprem o prometido. Até para os palestinos moderados, a solução sempre será a “revolução”.

    Forte abraço.
    Shalom.

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