Turquia, Islã, o Brasil e os direitos femininos

Caros amigos e leitores,

Hoje celebra-se o Dia Nacional na Turquia, comemorando 90 anos da fundação da República da Turquia, por Mustafa Kemal Atatürk. Qual o motivo de eu estar falando disso por aqui? Pois acredito que a Turquia é um ótimo ponto de partida para uma discussão sobre alguns mitos e senso-comum, sobre o Islã, sobre o Oriente Médio e inclusive sobre o Brasil.

A República da Turquia foi fundada das sobras de um cambaleante Império Turco-Otomano, o “homem doente da Europa”, que entrou em declínio na segunda metade do século XIX, seja por influência da expansão colonial europeia, seja por influência do nacionalismo que surgia em seus domínios, especialmente nos Bálcãs. Além desses aspectos geopolíticos, o sultanato turco-otomano era um regime retrógrado, para dizer o mínimo. A nova república turca não foi fundada em bases firmes existentes ou decorrente de um panorama regional de séculos; o fato de ser um país que não tem nem um século de existência faz da Turquia mais próxima de países americanos, como o Brasil, do que da “velha” Europa.

Nas próximas duas décadas seguintes, a Turquia passaria por diversas reformas modernizadoras, que aboliriam reminiscências da monarquia, revogariam as leis islâmicas, promoveriam o sufrágio universal e a laicidade do Estado, dentre outros aspectos. Combinado com o fato de, hoje, a Turquia ser uma democracia plena (e, diga-se, nesses noventa anos, em poucos momentos deixou de ser), é uma excelente e concreta demonstração de como Islã e a “modernidade” não se excluem, de que um país pode ser islâmico e não cair em uma generalização sobre talibãs, xiitas e lei da Sharia. O exemplo é ainda mais gritante quando se olha para a bandeira turca, com o símbolo do Islã, o crescente.

Se Turquia e Brasil forem comparados, outros tipos de senso comum são derrubados. No caso, os que se referem à sociedade brasileira. Além da tradicional (e, infelizmente, em muitos casos, justificada) perspectiva de um Islã machista, o Brasil ainda vende, e compra, a imagem de ser um país “igualitário”, um lugar em que supostamente não existe racismo nem machismo (longas histórias, ambos, que certamente não se esgotam aqui), a terra da cordialidade. Sabemos que essa imagem é falsa, e que coloca um véu em problemas sérios. E nenhuma imagem fica de pé quando confrontada com a realidade.

As mulheres turcas votaram em seu Chefe de Estado (1935) antes das brasileiras. O sufrágio universal turco (1930) precedeu o brasileiro em mais de uma década, já que as mulheres brasileiras só tiveram o mesmo status eleitoral que os homens com a Constituição de 1946, não com o Código Eleitoral de 1934, ao contrário do que se costuma dizer. A Turquia teve uma Primeira-Ministra em 1993; devido aos sistemas diferentes, é uma comparação complicada, mas acredito que se pode colocar como um avanço, em relação à eleição de Dilma Roussef em 2010. A Turquia teve um partido feminista já em 1923, o Partido Popular das Mulheres, fundado por Nezihe Muhiddin. Atualmente, 14% da Câmara turca (a Turquia é unicameral) são compostas por mulheres, contra 8,7% da Câmara brasileira, sendo que a porcentagem da população feminina na Turquia é menor.

Tansu Çiller, Primeira-Ministra turca de 1993 a 1996

Tansu Çiller, Primeira-Ministra turca de 1993 a 1996

Repito: trata-se de um país muito mais “novo” que o Brasil, mas com uma História de democracia muito mais altiva. Claro que a Turquia teve e tem problemas. Seus golpes militares durante a Guerra Fria, tal como cá, são um exemplo disso. Os protestos no presente ano, causados pelo Parque de Gezi, são, tal como cá, demonstração de insatisfação popular com diversos aspectos de cada país. Não digo que a Turquia é um paraíso perfeito, que não tem falhas ou setores retrógrados em sua sociedade. Mas seus avanços sociais são dignos de nota, especialmente pelo curto período de tempo em que se deram. O Dia Nacional da Turquia serve, aos turcos, como feriado nacional. Mas deveria servir, ao mundo, como exemplo de que o ódio generalizado e o preconceito ao Islã são infrutíferos. E servir ao Brasil como lembrete de que nós não somos, ainda, tudo que já achamos de nós mesmos.

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9 Comentários

  • Seria legal falar que o Brasil foi responsável pelo atraso eterno do Paraguai, assim como a Turquia por problemas eternos da Armênia, como resultado de Guerras que participaram. Legal seria também falar de Mustafa Kemal, o Atatürk, que tem vários pontos de contato com Getúlio Vargas.

    • Caro Pedro, acho que as situações de Paraguai e da Armênia são diferentes, mas concordo sobre Kemal e Vargas, em alguns aspectos. Um abraço.

    • Brasil responsável por atraso eterno no Paraguai? Controversa essa sua opinião, para dizer o mínimo. A guerra do Paraguai foi terminou há quase 150 anos.. e foi causada pelo Paraguai! Como exatamente o Brasil teria sido “responsável” pelo atraso do Paraguai até hoje?

  • Roberto, o Brasil derrotou o Paraguai de forma acachapante, com uma certa desproporcionalidade, visto que com dois anos de Guerra a vitória era certa e só continuou para pegarem o Solano López. Boa parte da população Paraguaia se foi nessa. Claro que são situações bem diferentes a da Guerra do Paraguai e a do Genocídio da Armênia na segunda década do século XX, mas nosso vizinho, assim como a Armênia, nunca se recuperou totalmente do massacre que sofreu no século XIX.

  • Em questões de direitos humanos, femininos e seja lá o que for, o Brasil está é andando pra trás, vide esses fundamentalistas religiosos querendo enterrar a todo custo o que resta do nosso estado laico…

  • A impressão que me passa é que na Turquia [talvez no Líbano, guardadas as proporções], há uma certa clivagem política e religiosa entre certos segmentos da população. As classes mais prósperas economicamente, concentradas em Istambul por exemplo, tendem a ser mais ocidentalizadas – mais favoráveis a abertura de mercados, etc. – e laicas, ao passo que as classes menos favorecidas ainda são mais apegadas às tradições do islã e a uma plataforma política e econômica, digamos, mais estatista.
    No caso turco, mais especificamente, por mais que o governo Erdogan tenha sido bastante amistoso para com a economia internacional e suas regras, o que o torna mais indigesto para esses setores mais prósperos é a guinada mais conservadora nos costumes [proibir venda de bebidas alcoolicas perto de mesquistas, permitir o uso do véu em edifícios públicos]. O laicismo do Estado parece ser mais caro aos setores dominantes.

  • Pingback: Xadrez Dominical (20) – Turquia | Xadrez Verbal

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