Pesquisa e manipulação eleitoral do Ibope, e um pouco de democracia

Ontem, dia 24 de Outubro, foi publicada nova pesquisa eleitoral do Ibope, tanto sobre as eleições presidenciais vindouras quanto sobre o desempenho da Presidenta Dilma Roussef. Recomendo que o leitor dê uma olhada nas pesquisas, nem que por mera curiosidade. Farei algumas observações.

A primeira é sobre a retirada de Marina do cenário, ao menos como nome principal da chapa. Comparando com a pesquisa anterior, em que ela ainda era considerada “presidenciável”, nota-se que ela foi de segunda ou terceira força para meramente agregar alguns votos ao candidato Eduardo Campos. Mais, tais votos talvez tenham vindo do eleitorado de Aécio. Conclusão, a aliança de Marina com Campos, já tratada aqui nesse blog, causou mais fragmentação na oposição, prejudicando mutuamente a imagem de Campos e Marina em relação aos respectivos eleitorados, do que problemas para Dilma.

Indo além, considerando os blocos de eleitores indecisos ou nulos, Dilma tem boas chances de levar a eleição no primeiro turno, o que não ocorreu na eleição de 2010. Se isso ocorrer, a legitimidade de seu governo e do Partido dos Trabalhadores pode chegar a patamares bem elevados, já que seria uma vitória presidencial sem o envolvimento direto de uma figura histórica como Lula, antes candidato, depois presidente que fez a sucessora. Outro fator que contribui para isso pode ser visto na segunda pesquisa; os índices de rejeição ao governo são relativamente baixos, e a rejeição, num segundo turno, desempenha papel vital. José Serra sabe muito bem disso.

Falando em José Serra, segundo a pesquisa Ibope, ele teria mais intenções de voto do que se Aécio Neves fosse o candidato do PSDB. Pode-se analisar o dado de duas formas; primeiro, Aécio ainda é considerado um nome “regional”, ligado estritamente ao estado de Minas Gerais, mesmo com mandato senatorial. Segundo, mais um exemplo de como o PSDB simplesmente não consegue se unir e trabalhar uma candidatura. Até pouco tempo atrás, Serra ainda insistia em ser candidato, e Aécio tem uma visibilidade muito aquém da que deveria conseguir como um suposto “líder da oposição”. Acredito que pelos cerca de vinte anos ininterruptos em seu berço eleitoral, o estado de São Paulo, o PSDB simplesmente não sabe “ser” oposição.

Dilma e Serra em debate antes das eleições de 2010. Foto: Bruno Domingos/Reuters

Dilma e Serra em debate antes das eleições de 2010.
Foto: Bruno Domingos/Reuters

Agora farei outros comentários, ainda sobre as pesquisas, mas em outro aspecto, macroestrutural e histórico. É comum ver na internet comentários sobre um uso de tais pesquisas para a finalidade de manipular o eleitorado. Sim, isso é possível, mas acredito que em situações específicas, e também acredito que essa desconfiança do público tem um motivo. Tratando especificamente da pesquisa aqui citada, ela foi encomendada pela Rede Globo e pelo jornal O Estado de S. Paulo. O Estadão, como é conhecido, foi, nas últimas eleições, o único meio de comunicação honesto o suficiente para declarar seu apoio em editorial. No caso, ao candidato José Serra, apoiado por diversos outros meios de comunicação, menos honestos e mais dissimulados. Seria de espantar que o mesmo jornal que abertamente se opôs à candidatura de Dilma Roussef encomendaria uma pesquisa para favorecê-la.

Indo além, tais pesquisas existem em basicamente todas as democracias, e não são monopólio de uma agência. Se apenas o Ibope tivesse essa prerrogativa, de forma ditatorial, o argumento seria válido. Mas não é o caso, existe o Datafolha, os próprios partidos fazem pesquisas, etc. E é um tanto quanto superficial achar que um cidadão seria influenciado meramente pelas pesquisas. Se seu candidato não estiver bem nas sondagens, ele abrirá mão de seu voto? Mudará seu voto? Ou, pior, mudará seu voto para o favorito apenas para ser “parte da vitória”? Isso é válido em um segundo turno, não em um primeiro. Mesmo desfavorecidos nas pesquisas e sem chances claras de vitória, Marina e Cristovam Buarque tiveram números sólidos nas últimas eleições presidenciais. Outro exemplo cristalino disso é o Referendo do Desarmamento de 2005, cujas projeções em pesquisas eram totalmente diferentes do resultado final. Se as pesquisas mudassem o voto de alguém, isso não teria ocorrido.

Mas qual o motivo desse tipo de desconfiança? Nossa História. O exemplo mais famoso talvez seja o debate, em 1989, para a eleição presidencial, entre Lula e Collor, editado de forma explícita e radical pela TV Globo. A imprensa, como um todo, é vista com desconfiança, especialmente em temas eleitorais. Mas existe diferença entre editar um debate e publicar um número. De qualquer forma, o Brasil tem apenas vinte e cinco anos de uma Constituição democrática, e indo para sua sétima eleição presidencial direta e universal seguida. E esse é o maior período democrático nos quase duzentos anos de História independente do Brasil. Como Estado e como sociedade, somos uma democracia jovem, ainda amadurecendo e carregada de traumas do passado; como a manipulação da opinião pública, que gera desconfiança excessiva, além do senso crítico. Repito, é possível manipular a opinião pública? Sim, mas não é uma pesquisa Ibope que fará isso. Manter-se fiel ao seu voto, seja ele qual for, é muito mais importante que qualquer estimativa. No final, a porcentagem que importa ainda é desconhecida.

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6 comentários

  • Duvido que Dilma leve em primeiro turno. Nem o Lula conseguiu. Lembro que a última Datafolha apontava que o nível de conhecimento de Campos é baixo e o do Aécio, ainda que em menor grau, também tem espaço para crescer. Quando a campanha começar, os oposicionistas novatos sobem. Sem falar nos eventuais nanicos que, ao levarem um tiquinho de eleitores aqui e ali, ajudam a empurrar o jogo pra segunda volta. O cenário pior na pesquisa para Dilma é com Serra e Marina, mas isso porque foram os candidatos das eleições anteriores – o recall é mais alto, são conhecidos.
    Dito isso, Dilma é, sim, mais do que favorita.

  • A análise de que Marina tira mais votos de Aécio me parece bem equivocada. A pesquisa demonstra que ela tira 1 ponto percentual de Aécio e dois pontos de Dilma. O que a pesquisa realmente aponta é que Marina teria, no momento, mais votos que Eduardo Campos, e só. Nessas alturas do campeonato, um ano antes do pleito e com os candidatos (ou pré-candidatos) em fases diferentes de campanha (ou pré-campanha) eleitoral não quer dizer muita coisa, serve apenas para alinhar as estratégias de cada candidatura.

    • Caro Eduardo, sua interpretação me parece bem equivocada. Em nenhum momento o texto diz “tirar mais votos”; coloca que parte desses votos talvez venham de Aécio, fragmentando ainda mais a oposição.

  • E quanto às pesquisas eleitorais no Brasil, sou bastante cético quanto à lisura delas. Por diferentes motivos e tendências, vemos as pesquisas apresentarem variações e diferenças absurdas durante toda a campanha. Faltando apenas poucos dias para o pleito os números, “milagrosamente” passam por uma transformação com tendência completamente diferente da demonstrada por meses e… incrivelmente… esse último panorama, que não apareceu em nenhum momento da campanha, é muito próximo ao apurado nas pesquisas de boca-de-urna e nas próprias eleições. Para o eleitor, invariavelmente, fica a sensação que foi enganado o tempo todo, o que mais ouvimos nas ruas é “se eu soubesse que fulano teria chance eu votaria nele”…
    Posso estar muito errado, mas essa impressão me é passada a cada eleição.

    • Caro Eduardo, acredito que o problema está justamente em quem diz “se eu soubesse que fulano teria chance eu votaria nele”: reafirmo a conclusão do texto, manter-se fiel ao seu voto, seja ele qual for, é muito mais importante que qualquer estimativa.

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