O movimento não pode ir pro vinagre

Hoje, dia 19 de Junho de 2013, o prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, e o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciaram a revogação do aumento das tarifas de transporte público, estopim de uma série de manifestações, que já foram tratadas aqui, e serão abordadas novamente no futuro. Cito a memória da mãe de um amigo: nem no auge da recessão, com inflação galopante, desemprego altíssimo e boa parcela da população passando por necessidades básicas, houve uma redução de tarifa. Como todos os depoimentos, está sujeito às peças que a memória nos prega. Mas não invalida a vitória de hoje. Uma importante vitória, conseguida por milhares de pessoas que ocuparam as ruas, foram reprimidas, sentiram o cheiro de gás lacrimogênio e a borracha na pele. Mas o campeonato está só começando, ainda precisamos labutar por muitas outras vitórias.

No caso do transporte público, para esse blogueiro, a luta resta sobre dois temas essenciais. Primeiro, o da qualidade. Ok, baixamos o valor da tarifa? Ótimo. Mas e quantidade de ônibus circulando, para reduzir a superlotação? O conforto e a qualidade desses ônibus. E a extensão, extremamente reduzida, do Metrô de São Paulo? A supressão, ou redução, de linhas de ônibus existentes? A regulamentação e melhoria das linhas consideradas, na prática, de segunda-classe, que são feitas não por ônibus, mas por vans e micro-ônibus? Todas essas questões, referentes à qualidade do transporte coletivo, são tão válidas quanto os aspectos econômicos e financeiros. Falando em finanças…

Quais os custos da operação de transporte coletivo? Qual a margem de lucro dos empresários de transporte? Quais são as empresas que dominam o transporte público? Qual a margem de lucro da empresa que faz a intermediação do Bilhete Único, que frequentemente está “sem sistema”, gerando filas e mais gastos por parte do usuário? Por que não uma auditoria do Tribunal de Contas nas empresas contratadas? Qual a carga de impostos que essas empresas têm sobre suas cabeças, já que a desoneração é sempre para os insumos, como diesel e pneus, não para o serviço? Não adianta o governador falar em “apertar o cinto” para viabilizar a diminuição da tarifa (cinto que ele não apertou no início do ano) se essa caixa preta do transporte coletivo continuar lacrada.

Amanha haverá outro protesto organizado pelo Movimento Passe Livre. Compareçam, todos. Primeiro, uma comemoração é justa, e parabéns ao MPL, aos movimentos, aos coletivos e aos partidos (não é um comentário partidário, uma democracia forte é construída por partidos fortes) que participaram da luta desde o início e possibilitaram o “despertar” de quem estava dormindo. Mas diversos problemas permanecem. Diversas melhorias ainda são necessárias. Fique feliz, sorria ao perceber que o povo foi ouvido. Mas não se deixe levar pela euforia, sentado no sofá achando que fez sua parte. Não deixe o movimento ir para o vinagre.

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Aqui está a convocação do MPL para o ato de amanhã. Compareça e divulgue.

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6 comentários

  • Aqui no ES, a Assembléia Legislativa aprovou uma emenda a Constituição Estadual estendendo a gratuidade do passe livre a todos os estudantes quer seja na capital do estado ou interior. Como bem lembrado no texto acima, como é que fica a qualidade? Vez que este serviço tratar-se-á de uma concessão do poder público ao setor privado para que este explore mas o usuário deve ser tratado com respeito pois lhe é exigido um tarifa para utiliza-lo! Sendo ainda uma concessão pública as regras deveriam ser claras para os usuários e ter o máximo em qualidade para quem se utiliza deles, pois propaganda incentivando o uso do transporte público e não tendo qualidade é jogar dinheiro fora!

    • Caro Henle, além da questão da qualidade, no seu exemplo, cabe também a fiscalização. Já foi reportado que, no RJ, onde existe lei similar (alunos das redes municipais e estaduais, uniformizados, não pagam), motoristas passavam direto nos pontos perto das escolas. Um abraço.

  • Filipe, segundo a lider do movimento Passe Livre, a manifestação vai prosseguir agora para que se institua a tarifa zero, a reforma agrária, o fim dos latifúndios rurais e urbanos, além da libertação e retirada das ações impostas àqueles vândalos, aquela tal “meia dúzia”, ‘aqueles que até ontem “não representavam o movimento”. Essas realmente são as bandeiras defendidas a partir de agora?

    • Caro Eduardo, acredito que a declaração dela foi mais pessoal do que em nome do MPL. O MPL é bem claro, em suas páginas e manifesto, que seu foco é o transporte público, sendo a meta última a gratuidade do transporte público (coisa que esse blogueiro acha um tanto quanto útopica). Então, não acredito que essas serão as bandeiras do MPL, como um coletivo. Um abraço.

      • Esse é o grande problema, quem representa um grupo, participa de negociações com a prefeitura e o governo estadual, dá entrevistas em nome do Movimento e assume as vitórias obtidas com as manifestações (como representante do coletivo), não pode soltar as suas opiniões pessoais nesses mesmos momentos representativos. Liderança do MPL fala pelo MPL… se fosse o contrário, poderíamos desconfiar, descartar ou relativizar TUDO o que foi dito até este momento. Remetendo ao comentário do outro post, é uma questão de “lição de política”… se isso se aprende na escola ou nas ruas, eu não sei, o fato é que a menina não aprendeu nada (ou aprendeu errado) até agora. Grande abraço!

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