Insônia paulistana

Observação: este texto tratará dos protestos do dia 17/06/2013 em São Paulo. Amanhã, o blogueiro escreverá bobagens sobre o panorama nacional.

A cidade não necessita mais de apresentações. São 17:30 quando chego no Largo da Batata. Para você que não é familiar com a geografia da metrópole, o Largo da Batata é um enorme entroncamento de linhas de ônibus, metrô e vias arteriais, além de estações de trem na região (trem e metrô, em São Paulo, são coisas diferentes). A massa é heterogênea, o que pode ser positivo ou negativo. Andamos. Avenida Faria Lima inteira. No cruzamento com a Avenida Juscelino Kubitschek, o grupo se divide. Um bloco vai ao Morumbi, rumo ao palácio do governo. Outro bloco vai à Avenida Paulista. Outro bloco vai para a Marginal do rio Pinheiros. Estou nesse último grupo, por isso, esta narrativa será sob esse ponto de vista. Andamos a Avenida JK inteira. A Avenida Berrini inteira. Ocupamos a Ponte Estaiada, um luxo arquitetônico que não foi feito para os pés dos cidadãos que financiaram sua construção, apenas para seus pneus. De lá, rumo ao Morumbi, de onde começa minha jornada de volta. O percurso é de uma quilometragem considerável, aviso ao leitor e às minhas pernas. Mas quilômetros ou avenidas não importam. O que importam são as pessoas. As mais de cem mil pessoas, que mesmo separadas, ocupam, simultaneamente, algumas das avenidas, ruas e cartões-postais mais importantes e conhecidos da metrópole. Como eu disse, o grupo é heterogêneo. Por isso, alguns dos gritos de outras manifestações se repetem. Outros se renovam. E novos surgem.

O Largo da Batata. E ainda tinha muito mais gente.  Foto: Miguel Schincariol/AFP

O Largo da Batata. E ainda tinha muito mais gente.
Foto: Miguel Schincariol/AFP

“NÃO. SÃO. Só vinte centavos”. Talvez motivados pelo desmerecimento de muitas pessoas em relação aos protestos, classificados como “são só vinte centavos, meu”, os manifestantes deixam claro que não se tratam meramente de duas moedinhas. Trata-se do descaso e da ineficiência do transporte público paulistano, como citado num texto anterior. Trata-se da ganância dos grupos que controlam as empresas de transporte, confidenciados a uma caixa preta. Trata-se do privado sobrepujando o coletivo, do indivíduo que prevalece sobre a sociedade. Surgem novas reivindicações. Por exemplo, um grupo considerável de manifestantes se deteve aos portões da sede local da Rede Globo. Como não acredito que ninguém foi obrigado a parar ali, é legítimo. Mas alguns outros gritos ressoam no meio da multidão, causando expressões de estranhamento. Ter outras causas não significa agrupá-las, o que era o caso no mínimo. Ninguém estuda três matérias diferentes ao mesmo tempo. Não se ajusta uma sociedade numa tacada só, ao contrário do hábito imediatista que a nossa sociedade adora em tudo. Um passo de cada vez. Literalmente.

“Não é coincidência, sem PM não tem violência”. O ato transcorreu sem ocorrências sérias, sem confrontos, sem uma horda visigótica (vândalos ficaram clichê) pilhando a cidade e destruindo tudo em seu caminho. Sei de confrontos em frente ao Palácio dos Bandeirantes, porém, não farão parte do meu relato, pois eu não sei o que relatar. Não estava lá, mas não omiti o fato. Voltando, os poucos policiais vistos em todo o trajeto estavam ali, muito provavelmente, pois estariam ali de uma forma ou de outra, como uma viatura parada perto do cruzamento entre as Avenidas Faria Lima e JK. Há relatos até de policiais que teriam se sentado com os manifestantes, e aplaudidos por isso. Não teve Choque, muito menos ROTA. Pra mim, podemos refletir sobre isso das seguintes maneiras. Primeiro, a imagem da PM ficou publicamente arranhada pelos acontecimentos de quinta-feira. Segundo, esse arranhão ocorreu, em boa parte, pela truculência que atingiu jornalistas e outros profissionais da imprensa, fazendo com que a mídia mudasse seu tom sobre os manifestantes. Terceiro, 99% dos manifestantes não querem tacar fogo em tudo (Só em algumas coisas?) e deixar terra arrasada para trás. E é isso que não pode sair da sua mente, da memória da Polícia, do prefeito, do governador, dos jornais.

“O povo na rua, Geraldo a culpa é sua”/”Geraldo fascista, vergonha do paulista”. Muita gente, felizmente, não se esqueceu de que, se a responsabilidade do aumento do ônibus é do prefeito, a responsabilidade dos confrontos é do governador. Até o momento desse post, Alckmin não se pronunciou. Sobre nada. Talvez tenha dado parabéns para alguma cidade via Twitter . Mas, como o protesto foi de largas proporções e pacífico? Não. Como sua postura covarde de se escudar atrás da PM deixou uma imagem péssima? Não. E não pense o leitor que o prefeito foi poupado…
“Dança, dança até o chão, o Haddad subiu o preço do busão”. Alguns dos que entoaram o grito ensaiaram até uma espécie de coreografia, que não será repetida aqui por motivos óbvios (o pudor do blogueiro não é um deles). Alguns outros gritos foram entoados contra o prefeito, mas eram dos mais óbvios (pense numa ofensa que rime com “busão” e pronto). Mas esse foi citado especialmente por conta da coreografia. Que raios de pessoa que, num protesto, faz uma coreografia, uma dancinha? Talvez, alguém que não costuma participar desses atos. A tal massa heterogênea. Alguém que encare um evento dessas proporções como uma espécie de micareta. Não, política não é uma micareta. E ponto final.

O Hino Nacional. Esse é sempre um assunto polêmico. Afinal, a maioria ali não é de brasileiros? Os principais interessados não são brasileiros? Então, cantar o Hino Nacional seria, ou dispensável, por tão óbvio, ou essencial, por ser algo comum a todos. Não acho que nem um, nem outro. Numa manifestação como a de hoje, como a dos últimos dias, o opositor é justamente um componente do Estado. Veja, não é o Estado em si, não é um raciocínio neoliberal. Mas se de quem você está reclamando é o Estado, se quem você cobra é o Estado, como entoar louvores ao Estado? Sob outra perspectiva, a nacionalidade brasileira é compreendida por muitos (inclusive eu, em outros contextos diferentes) como um fator de união, que amálgama aquela massa. Por isso, acho compreensível o canto do Hino Nacional por quem se propor à, embora, pessoalmente, ache um paradoxo.

“Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Agora pegue sua camiseta do Banco do Brasil e torça de forma organizada e obediente enquanto assiste a uma partida de vôlei. E poupe-nos. Uma coisa é o Hino Nacional, um símbolo pátrio que, embora possa estar deslocado, ainda é um fator respeitável. Agora, musiquinha ufanista pseudo-patriótica criada por audiência televisiva, não dá. O patriotismo é o último refúgio do canalha, já disse o literato inglês Samuel Johnson. Claro que isso se refere não ao sentimento de pertencimento, citado acima, mas sim ao ufanismo barato, que exalta a falha e disfarça a incompetência. “Muito orgulho” e “muito amor” não cabem no mesmo contexto de “Esse transporte público é uma merda, eu não vou pagar esse abuso e quero melhorias pra ontem”. Então você tem “muito orgulho” de ser espremido no ônibus? Acha que o preço da tarifa vem com “muito amor”? Mas alguém pode dizer, “ah, mas blogueiro, pô, não é só vinte centavos, tem mais coisa, mas a gente não pode deixar de ser brasileiro”. Primeiro, novamente, termos outras causas não significa a confusão (ou apropriação) entre elas. Segundo, tenha orgulho quando esse orgulho é justificado. Tenha amor quando, no exato momento enquanto você lê esse texto, uma pessoa não morre esperando atendimento num hospital público.

“Ô, o povo acordou”. A suprema bunda-molesização da manifestação. Agora, o “povo acordou” contra o péssimo transporte público. Contra a corrupção (nunca vi alguém dizer ser pró corrupção). Contra a PEC 33, a PEC 37 e a PEC 666. Contra o aborto. Contra o casamento gay. Contra o PSDB, o PMDB, o PT, o PSOL e o Pf. Contra a presidenta Dilma. Contra tudo, pois “o povo acordou”. Primeiro, se você acordou agora, parabéns, cidadãos politizados nunca são demais. Mas não ache que, se você chegou agora, estão anulados os movimentos que atuam há décadas. Não ache que, por sua causa, agora “o povo acordou”. O povo nunca foi dormir. Te venderam a imagem de um brasileiro bovino e bundão, e você comprou sem pestanejar. Como está demonstrado neste texto do essencial Lúcio de Castro, de pacato o brasileiro não tem nada. Você, que acordou agora, desconhece a própria História, do país que diz ter muito orgulho e muito amor. Quer protestar contra/a favor uma PEC, contra/a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, pela redução da maioridade penal, contra políticos inescrupulosos que usam seus números nas urnas para proveito próprio? Vai em frente. Se for o que você acredita, posso até discordar, mas vou apoiar. Vai lá e organiza a sua manifestação. Entupa as ruas carregando a sua ideia, as suas razões. Mas não se aproprie de outra manifestação, travestindo-a com seus motivos desconexos dos que estão ali, com sua postura pasteurizada de almeidinha. Não clame ser a voz de quem nunca parou de gritar. Não se transforme exatamente no que condena.

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