Santo Antônio grita, São Paulo sufoca

Fotografia de Cora Ramos

Fotografia: Cora Ramos

Santo Antônio grita, São Paulo sufoca

Maior cidade da América do Sul. Comporta cerca de onze milhões de pessoas, que produzem anualmente quase meio trilhão de reais. Números que poderiam ser usados para definir não uma cidade, mas países. Essa é São Paulo. Nos últimos quinze dias, São Paulo está agitada, mais e mais, por protestos contra o aumento da tarifa dos ônibus e do metrô. Aumentos e protestos ocorrem por todo o país, mas os números e, especialmente, a sociedade paulistana garantem a peculiaridade. O aumento tarifário foi de vinte centavos. Só uns centavos. Muitos centavos. Dia de Santo Antônio, dia 13 de Junho de 2013. Quarto protesto, manifestação, ato, chame como quiser, contra o aumento da tarifa. Em frente ao Theatro Municipal, no centro histórico da metrópole, milhares de pessoas se unem. Uns dizem cinco mil, outros dez, outros quinze. Pessoalmente, fico com algum número entre dez e quinze mil. Essa multidão, formada por gente de todos os tipos, de todos os cantos, motivados das mais variadas formas, sai em marcha. Eu sou um deles. Os milhares andam e cantam. Gritam.

“Vem, vem para rua, vem contra o aumento”. Todas as pessoas podiam ir ao ato. Todas, ao passar, ao assistir, curiosas, nervosas, raivosas, eram chamadas para se juntar à multidão. Lá estavam desde metalúrgicos com algumas décadas de vida, até estudantes cuja idade ainda não justifica o plural. Pessoas que, ao fim do mês, certamente sentirão falta dos vinte centavos repetidamente gastos, aos que poderiam arcar com vários outros centavos. Mas, se para o bolso do cidadão esses vinte centavos não necessariamente farão diferença, e para as empresas de transporte? Seis milhões de usuários diários de ônibus, mais aproximadamente cinco milhões de usuários diários de metrô. Desconsideremos metade desse número, entre gratuidades e meias-passagens. Temos cinco milhões e meio de usuários pagantes por dia, com duzentos e sessenta dias úteis ao ano. Ao final de um ano, duzentos e oitenta e seis milhões de reais. Quando se trata da metrópole, nada se resume a vinte centavos.

“Abaixo a tarifa, põe na conta da FIFA”. Quase trezentos milhões provenientes exclusivamente do aumento tarifário. Para o leitor que não sabe, o preço inteiro soma mais três reais, além dos vinte centavos. Para um serviço de qualidade, que justifique o valor pago? Não, longe disso. Muito longe disso. O paulistano (e uso o termo para me referir aos residentes, não necessariamente aos naturais do local) que depende do transporte coletivo certamente ouviu um cobrador de ônibus pedir para “dar um passinho pro fundo”, ao ser espremido como sardinha enlatada. Certamente esperou na plataforma de metrô para embarcar no segundo ou terceiro trem, os anteriores absolutamente inviáveis. “Ah, mas você tá sendo injusto”, diriam alguns, “o governo dá mó subsídio pro transporte”.  O mesmo governo que esbanja mais de um bilhão de reais para estuprar o estádio do Maracanã, enquanto a FIFA estima que o seu lucro, particular, com a Copa de 2014 será de dez bilhões de reais? O mesmo governo que desaloja famílias em Recife para construir um estádio que será inútil após a Copa? Não se trata de complexo de vira-lata, achar que o Brasil, unicamente por “ser o Brasil”, seria incapaz de organizar grandes eventos. O Brasil é capaz. Minhas suspeitas são em relação aos valores envolvidos. Quem se beneficia desses “investimentos”? Não poderiam ser revertidos, no caso, para o transporte? Para quem vai esse dinheiro? Para quem vão os meus vinte centavos?

“Ô motorista, ô cobrador, o seu salário também aumentou?” O piso do salário de um motorista de ônibus na cidade de São Paulo é de R$ 1.776,60 e o de cobrador de R$ 1.026,48. Claro, esse é o piso, ainda incidem horas extras, insalubridade, etc. Aproximadamente, 2,6 vezes o salário mínimo, e um salário mínimo e meio, respectivamente. Ainda o salário mínimo como referencial, uma pessoa que pague duas conduções por dia útil, ao fim do mês, desembolsará mais oito reais por conta do aumento, o que é pouco mais de 1% do salário mínimo. Sendo assim, um cobrador de ônibus deveria receber um aumento, no mínimo e no piso, de cem reais. Tenho certeza que toda pessoa que eventualmente ler esse texto gostaria de receber, ao fim do mês, uma nota azul, novinha, com uma garoupa e um número cem estampados. “Ah meu, tem que comprar ônibus novo, consertar, pagar estofado”. Sim, sem dúvida. Mas, novamente, não é isso que se vê no dia a dia. Algo me diz que ser dono de empresa de ônibus não deve render tantos prejuízos assim. Novamente, vinte centavos pra quem?

“Ei, otário, o movimento é apartidário” Bandeiras, várias, tremulavam. Inclusive bandeiras de partidos políticos. Mais de um partido. Mais de um movimento social ou estudantil. No mínimo, aquela massa de milhares de pessoas era pluripartidária. Mas, ali, na concentração, muitas vozes cantavam contra as bandeiras partidárias. Algumas, com variações mais incisivas do grito citado. Paulo Henrique Amorim disse que, além de todos ali serem brancos e vagabundos (vagabundos eu não afirmo, mas que nem todo mundo era branco, isso eu sei), era algo “organizado pelo PSDB”, supostamente para desestabilizar a gestão Haddad. Reinaldo Azevedo disse basicamente a mesma coisa, porem, para ele o “maestro” do movimento seria o próprio PT, cujo objetivo seria a eleição estadual vindoura. Eu estava lá e não sou filiado a partido algum, assim como outros milhares. Acredito é que nenhum grande partido queria essa manifestação. Curiosa foi como a articulação entre PT e PSDB foi tão rápida, na hora de reprimir.

“Sem violência, sem violência”. A massa começou a andar. Do Theatro para a Praça da República. Subimos a Ipiranga. Pacificamente. Sem vandalismo, baderna ou depredação. Pessoas vaiavam. Pessoas aplaudiam. Curiosos só olhavam. Gente cansada que demoraria pra chegar em casa ficava puta da vida, e com razão, não se pode negar. De lá, começamos a andar pela Consolação, rumo à Avenida Paulista. No cruzamento da Consolação com a Rua Maria Antônia, talvez a mais ideológica das esquinas da metrópole, o grupo para. Deveríamos seguir por outra faixa. Ou nos reduzir a uma faixa. Ou a outro sentido. Não se sabia. As informações estavam desencontradas. E, ali, há menos de cinquenta metros de mim, estoura a primeira bomba jogada pela Polícia Militar. Ninguém me contou, eu vi. Não havia violência, não havia tumulto, não havia pretexto, muito menos justificativa. A corporação que deve proteger o cidadão e organizar uma multidão simplesmente partiu para a violência, buscando uma suposta demonstração de força contra quem deveria se sentir seguro ao seu lado. Infelizmente, essa seria a primeira de muitas e muitas bombas. Quase mil policiais mobilizados, Cavalaria, Choque, ROTA, Força Tática, ROCAM, helicópteros. Centenas de feridos, emboscadas e cercos, centenas de presos, vias, no plural, das mais importantes bloqueadas justamente pela PM. Se você está lendo esse texto, você possui uma conexão de internet. Procure por fotos de quem levou tiro de bala de borracha no rosto ou por vídeos da cavalaria bloqueando vias. Ocorreram atos de violência, posteriores, dos manifestantes? Sim, sem dúvida. Mas o confronto foi deflagrado pela própria Polícia Militar. Infelizmente, afirmo sem nenhuma dúvida que todos os danos causados hoje, às pessoas, ao governo, às ruas, ao trânsito, todos, foram causados unicamente pela ação desnecessária e desmedida da Polícia Militar.

“Ei, fardado, você também é explorado”. O salário inicial de um PM do estado de São Paulo é de, aproximadamente, dois mil e quinhentos reais. Sem saber se vai voltar vivo pra casa no fim do dia. Quase uma centena de PMs foram executados no estado de São Paulo em 2012. Eles são o rosto de governos omissos. Executam as ordens recebidas do governador, comandante da Polícia Militar, diretamente de Paris. A população sente raiva, repulsa, do PM que a agrediu. A imagem de um efetivo de quase cem mil pessoas fica ligada a uma ação covarde, mas, no fundo, eles também são os agredidos e explorados ali. A família do soldado provavelmente também é espremida no transporte coletivo. Seus filhos talvez estudem numa escola pública, sucateada. E ainda são ordenados a fazerem o serviço sujo e violento em nome de gente que “não vai negociar”. Claro que não, não é ele que está encurralado, tomando borrachada do PM ou pedrada do manifestante que reage. De Paris, qualquer um diz que não vai negociar. E que faz questão de vinte centavos.

“Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar”.  O grande mote de todo o movimento, usado em outras manifestações contra aumento de tarifas. Um slogan, se preferirem. Mas, o mais curioso é: quarta-feira, dia 12 de Junho, registrou um dos maiores congestionamentos da história de São Paulo. Sem manifestação alguma! Sem greve ou paralisação! Ou seja, quem atrapalhou o cidadão a chegar na sua casa, no seu compromisso de dia dos Namorados, no seu trabalho, não foi nenhum “vândalo” ou “baderneiro”, ou “grevista vagabundo”. Foi ele mesmo. E milhões iguais. Agora, imaginem se o transporte público fosse de qualidade, com uma grande extensão de metrô, ônibus confortáveis? Provavelmente o trânsito seria menor. Veja, não é uma “cruzada” contra o carro, pelo contrário, ele tem, e muitas, qualidades. Mas, para o deslocamento cotidiano, se aquele cara que esbravejou parado no trânsito estivesse interessado na melhoria do transporte, quem sabe ele poderia aproveitar seu carro para o lazer, e ter muito menos desgaste para ir ao trabalho ou à faculdade. Parada, a cidade já está.

Arnaldo Jabor vociferou esses dias que a “causa” desses protestos era “a falta de causa”. Uma merreca de vinte centavos. Podem até serem vinte centavos, mas que significam muito mais que o vil metal. Causas não faltam, como citadas aqui. A insatisfação, a desilusão, o fim da paciência, a injustiça cotidiana que não é televisionada, a violência da rotina de uma cidade que sufoca seus habitantes para dentro de seus carros, de suas casas, de seus condomínios. De seus medos. A individualização do que deveria ser da sociedade. No caso, do transporte, mas dos colégios particulares e planos de saúde também. E pode significar ainda mais. As manifestações apenas crescem. Os números nas redes sociais passaram da dezena de milhar. Vinte centavos é o preço do fim da apatia social.

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